quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A culpa não é de Deus

Podem parar de blasfemar. A culpa não é de Deus. Aliás, nunca foi.
O que se passa é que Deus é daqueles que acredita na delegação de poderes e responsabilidades e, desse modo, foi-se criando uma teia de “pequeno poder” e pequenos poderosos.
Mas quem diz que a culpa não é de Deus sou eu. O próprio Deus assume a culpa porque também é daqueles que acha que quando os subordinados falham, em última instância, a falha também é de quem está acima.
Mas Deus é, por definição, perfeito... logo não pode ter falhas. Mas para entender isso só sendo Deus, está para além da vossa compreensão. Não sou eu quem vos vai tentar explicar. Vou sim contar-vos os factos.
Já ouviram falar do fim-do-mundo pelo grande dilúvio certamente. Ora bem, comecemos por aí. A versão oficial diz que foi Deus quem fez com que chovesse durante quarenta dias e quarenta noites lavando os pecados da humanidade com o extermínio da vida terrestre, exceptuando a virtuosa família do mais virtuoso ainda Noé, que sendo avisado com antecedência teve a pesada missão de construir um barco enorme onde abrigaria um casal de cada espécie terrestre durante o dilúvio, para posterior repovoamento.
Mesmo a esta distância podemos perceber claramente que não foi assim. Basta pensar nisto: todos os casais de todas as espécies que entraram na “Arca de Noé” eram heterossexuais. Ora isto é claramente discriminação homofóbica e como todos sabem, Deus não discrimina e muito menos é homofóbico.
De facto não foi Deus quem fez cair o dilúvio nem houve nenhuma “Arca de Noé”.
O responsável foi o presidente do Conselho Executivo do Instituto Meteorológico Mundial.
Era sua tarefa gerir o clima com equilíbrio e naqueles dias, de facto, o clima era equilibrado. Mas o dito presidente andava perdido de paixão pela secretária e com uma audácia ultrajante fugiu com ela para outra galáxia. E logo num dia em que chovia a potes na maior parte das zonas da Terra.
Ora, só o presidente tinha os poderes de influenciar o clima. Os outros membros do Conselho Executivo eram convenientemente desprovidos de iniciativa própria. Não havia nenhuma acta, ofício, ou mesmo um memorando, onde o presidente indicasse a quem delegava os seus poderes durante períodos de ausência.
Continuava a chover.
O único canal de comunicação para Deus era o próprio presidente.
È deixar andar que logo se vê…
E viu-se.
No “management-report” do final desse mês Deus notou um agravamento catastrófico no consumo de água no Planeta Terra. Pediu explicações por email ao Ministro do Ambiente, que questionou o Secretário-de-Estado dos Recursos Naturais, que oficiou o malandro do presidente de quem já falei.
À falta de resposta Deus foi directo ao assunto, chegando a tempo de minorar os danos, parando a chuva e proporcionando condições aos poucos sobreviventes para recomeçar o povoamento do planeta.
O presidente foi recambiado para director do H.E.L.L. (Hotel de Espíritos Lamentavelmente Lixados) num local árido e de temperaturas tórridas, onde continua até hoje. Deus ficou tão zangado que ainda não se falam.
Como líder forte que é, Deus criou a versão da “Arca de Noé”, da qual já aqui falamos, para assumir todas as responsabilidades.
Tem sido assim através da história da humanidade. Posso dar-vos mais um exemplo, sem aprofundar muito.
A história da Torre de Babel não é como contam. A humanidade já falava diferentes línguas desde o pós-dilúvio.
Muito por alto só vos digo que esta história teve a ver com negócios de construção civil, trabalho escravo e corrupção no tal “pequeno poder” envolvendo cúpulas do Ministério das Obras Públicas e do Ministério da Administração Interna (dizem que envolvia os próprios ministros!).
Tudo foi descoberto devido a grave acidente de trabalho e posterior manifestação dos trabalhadores escravizados. O único ponto comum entre a verdade e a versão oficial é que ninguém se entendia na manifestação, uma vez que eram todos imigrantes ilegais e provinham de dezenas de países diferentes.
É claro que lá veio Deus apanhar os cacos. Lá foi publicada a versão onde Deus assume toda a responsabilidade. Lá rolaram mais umas cabeças no “pequeno poder”.
Cada vez que sucedia um destes lamentáveis incidentes de incompetência do “pequeno poder”, Deus impunha mais limites à inter-acção entre os seres celestiais e a humanidade, até que, nos dias de hoje, se viu reduzida ao mínimo indispensável.
Nos dias de hoje… é precisamente por causa dos dias de hoje que vos conto estas coisas.
A humanidade está no limiar do abismo. Isso é sempre um sintoma do agravamento da incompetência do “pequeno poder”. Deus já leu esses sinais e já iniciou uma auditoria pessoalmente, ou melhor divinamente, ou seja lá como for que se deva dizer.
Deus, fazendo-se passar por um auditor externo, começou a auditoria pelo Ministério da Alimentação (criado após as cenas lamentáveis passadas no Egipto com um tal José, que avisado por Deus da aproximação de um período de escassez, armazenou comida suficiente nos seus silos mas resolveu só a repartir com quem muito bem entendia).
Questionou o ministro sobre qual a razão de tanta gente morrer de fome na Terra.
O ministro acompanhou-o até ao gabinete do Director Geral da Distribuição Alimentar onde a questão foi novamente colocada. O director negou a existência de fome na Terra. Deus, ou melhor, o auditor externo, confrontou-o com imagens chocantes de diversas zonas do planeta onde se via gente de aspecto subnutrido já às portas da morte. O director voltou a negar. Que devia ser uma doença e que nesse caso era assunto do Ministério da Saúde. Se as pessoas passassem de facto fome já teriam decerto enviado um fax para o seu departamento a solicitar mais comida. Não havia nenhum fax. Não há fax não há fome. Lamentava muito, compreendia a situação das pessoas, até gostava muito de ajudar, mas tinha de seguir os procedimentos porque o “tipo lá de cima” era a ele que responsabilizava e se as saídas não tivessem um documento suporte ele teria de repor toda a comida do próprio bolso.
Deus viu que isto não era bom.
Não vou cansar-vos narrando o sucedido nos outros Ministérios. Foi sempre o mesmo desfiar de incompetência, inércia e cegueira intelectual, o mesmo recurso à burocracia para iludir a realidade. Conto-vos apenas mais um episódio, que por caricato e diferente, merece figurar nesta narrativa.
Chegado Deus, como auditor externo, ao Ministério dos Assuntos Militares, viu o seu acesso vedado por ordem do respectivo ministro. Dizia ele que não sabia o que era um auditor, mas se era externo então não podia entrar. Era uma questão de lógica. Além disso haviam os motivos de segurança…
A Santidade de Deus é infinita e nunca pode ser posta em causa. A sua paciência, por aquela altura, é que já não era propriamente a de um santo.
O ministro foi acometido por súbita e imparável diarreia e Deus, o auditor, deu início à auditoria sem ele.
Completado o processo de auditoria a todos os ministérios, Deus viu que nada estava bem. Mais precisamente, não se aproveitava nada. Havia que reestruturar. Havia que ser pró-activo e mudar tudo antes que acontecesse uma daquelas situações cataclísmicas que lá dariam origem a mais uma versão oficial para a história, em que Deus assumiria a responsabilidade, e o acontecimento seria tido como um castigo à humanidade.
Não. O problema está na incompetência do “pequeno poder”.
Mas Deus acredita na delegação de poderes e responsabilidades, não no poder absoluto. Deus está agora a reflectir.
Ele, Deus, sabe que a realidade não é pedaços de papel. A realidade é Ele próprio e Ele é cada um e todos. Tanto é a vítima da fome como é o abastado que nada reparte. Tanto é quem tenta lutar contra esse estado de coisas como quem se acomoda ao seu próprio bem-estar.
Deus e o “pequeno poder” instalado estão a revelar-se incompatíveis.
Será por aí que vão começar as alterações.
Sei de fonte segura que as medidas vão ser drásticas. Deus vai eliminar vários elos na cadeia do “pequeno poder” e voltar a aumentar os níveis de inter-acção entre os seres celestiais e a humanidade.
Os ministérios, os ministros e os secretários-de-estado vão desaparecer, colocando-se Deus mais perto do “pequeno poder” executivo, podendo desse modo fazer um acompanhamento mais imediato de todas as acções, ou falta delas.
Os directores gerais e presidentes de conselho executivo actuais vão todos trabalhar na central de reciclagem de papel. Vão ser nomeados outros e de perfil muito diferente, que possuam conhecimento de causa em cada matéria. Por exemplo, para Director Geral da Distribuição Alimentar será nomeada a alma de alguém que tenha morrido de fome, para o da Saúde, a alma de quem tenha morrido de doença, e por aí fora, seguindo este princípio.
Tenho de confessar-vos que apesar de pretender eliminar muitos intermediários no “pequeno poder”, Deus necessita de alguém que faça a coordenação de todos os departamentos da Terra. Ele tem todo o Universo a seu cargo e não é fácil. Para essa tarefa necessita de alguém em possa confiar totalmente, alguém que seja a solução e não o problema, alguém que “vista a camisola” e “dê a vida” pela causa (metaforicamente falando, claro) … Alguém como o Seu filho, este vosso narrador. Eu!
Bem… Agora eu tenho que ir. A minha chegada à Terra terá que acontecer durante o período de visibilidade de um cometa. Uma daquelas coisas das versões oficiais.
Até um dia destes.


JC

Éden, 24 de Dezembro de 0000