quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A carta

Acordara tarde, muito tarde.
Sabia isso porque, bem agarrado à sua chávena de café de dose reforçada, se sentara por momentos e, num gesto mecânico e instintivo, tinha ligado o televisor onde, em vez das habituais informações sobre o trânsito em hora de ponta matinal, decorria já o noticiário da hora do almoço.
Como habitualmente ligou também o computador. Esperava ter um email muito especial.
Enquanto o sistema operativo arrancava observava sem muito interesse o jornalista que informava com ar de grande satisfação que aquela estação televisiva tinha obtido as maiores audiências da noite eleitoral.
Não pôde deixar de sorrir ao lembrar-se da noite anterior. Ainda na sede de campanha, já mais ou menos desligado dos comentários, reportagens e entrevistas televisivas, tinha por momentos centrado a sua atenção naquele mesmo canal onde os dois jornalistas, os “pivots” do programa, “espancavam furiosamente” um dos convidados a comentador por este achar desinteressante uma sondagem realizada pela própria estação.
Doía-lhe o corpo todo. Tinham sido duas semanas de campanha muito duras. Todas as viagens, todos os apertos, “arruadas”, comícios, preparação do terreno, tinham sido situações esgotantes. Tudo fizera para que o seu candidato tivesse todas as condições para dar o seu melhor. Duas semanas em que mais ninguém tinha contado.
Nem a mulher da sua vida.
Tinha dezassete novos emails, mas só um, só aquele lhe interessava. Estava ali, à distância de dois cliques. Tinha a data do próprio dia porque tinha sido escrito dez minutos depois da meia-noite. Trazia um ficheiro anexo chamado “carta.doc.”
Sempre original, pensou. “Abriu” o ficheiro imediata e ansiosamente ao mesmo tempo que colocava os óculos.


Meu Amor,

Estar afastada de ti está a dar-me uma grande lição.
Ensina-me o significado de Saudade. O seu significado ligado a quem está apaixonada. Apaixonada e separada do seu grande Amor.
Saudade é igual a dor. Uma dor sem intervalos que varia entre o forte e o demasiado forte.
Saudade será por isso, de facto, uma cólica. Uma cólica no coração.
Não há analgésico para esta cólica. Haver há … quando comunico contigo, mesmo à distância. Nesses momentos passa de demasiado forte para forte. Mas forte ainda dói muito.
Anseio pela cura, pelo dia em que me vais curar.
Visualizo-te a chegar. Salto para o teu colo. Um abraço forte. Um abraço meigo. Um beijo, outro beijo, outro ainda. Palavras sussurradas ao ouvido. Palavras que são carícias. Carícias que dizem mais que palavras.
Anseio por ti.
Começa a viagem na minha direcção.
Eu começo a minha agora.
Vem meu Amor.
Vem.


Estava deliciado com o que lera. Não esperava menos dela. Sabia a sua capacidade para pôr em palavras todas as sensações da alma.
Sensações da alma! Mais uma vez achava que a razão estava do lado dele no que dizia respeito a um debate recorrente entre os dois, em que ele sustentava que as mulheres tinham uma tendência inata ao exagero e ao empolamento de tudo o que tinha a ver com assuntos sentimentais.
Esta carta era prova disso. Ele também estava com saudades, mas suportava-as sabendo que era uma situação temporária. Tinham o resto da vida para estarem juntos.
Mulheres…
Já a imaginava no seu Smart a “viajar na sua direcção”.

Tinha de se preparar para a receber. Saiu da divisão que lhe servia de escritório, em direcção à casa de banho, com uma disposição bem melhor da que tinha quando ali entrara momentos antes. Atrás de si o televisor continuava a emitir o noticiário …”grave acidente rodoviário na marginal… o automóvel, que se despistou por volta da uma da manhã, ficou totalmente destruído… o único ocupante, uma mulher ainda não identificada que teria entre 30 e 40 anos, não resistiu aos ferimentos…”. As imagens mostravam o que antes era um automóvel a ser colocado num reboque. O que antes era um Smart.