segunda-feira, 21 de maio de 2018

Solstício



Uma madrugada de Solstício de Verão, quando a luz ainda tímida iluminava já o horizonte mas o Sol ainda não espreitava sequer.
Dentro de um círculo de pedras despedias-te da Lua. Todos te ouviam no exterior desse círculo, ajoelhados, hipnotizados e embalados pelo cântico dos druidas.
Não pude deixar de me impressionar com a tua figura.
Não sei se foi a magia do circulo de pedras, se a presença dos druidas ou se foi a presença da tua própria magia mas o facto é que mudei o percurso do meu voo para me aproximar de ti.
Toquei o chão mesmo em frente aos teus braços erguidos para o céu, ao teu rosto iluminado por luz própria, tão próximo que o teu calor queimou a minha pele e, tal como aquelas centenas de mortais, ajoelhei-me, não por vontade própria mas pela força avassaladora do momento.
Foi-me percetível que notavas a minha presença sem contudo o manifestares. Evitaste qualquer reação que me revelasse perante aquela assembleia.
Nunca antes sentira tanta paz. Paz com os mortais, paz com a natureza, paz comigo. Deixei-me ficar, de joelhos na terra e braços pendidos ao longo do corpo, cabeça levantada, olhando-te, decorando-te, adivinhando-te…. Foi então que os druidas se calaram, os bardos tocaram e tu… tu cantaste.
Cantaste e o mundo respondeu.
Aves chilrearam, o vento assobiou, as árvores dançaram, agitando os seus braços, as folhas percutiram o teu ritmo e o Sol fez a sua entrada.
Toda a natureza explodiu.
Cantavas.
O Sol avançava.
As sombras recuavam e chamavam-me.
Eu ficava.
Trocava a vida eterna pela eternidade de um momento de vida.