terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O velho


Sou velho. Sou muito velho.
A velhice é uma etapa de um caminho feito passo a passo. Passos do passado que chegam até hoje.
Mas que é o presente senão o futuro do passado, que será passado no futuro?
Percorro a vida à procura da minha mortalidade mas a Morte é incapaz de se aproximar.
Não lhe é possível. Não nos é possível dialogar.
Fixamo-nos um no outro à distância. Nunca tem o mesmo rosto.
Reconheço-a pelo cheiro a flores de cemitérios por onde à noite passeio, apenas para ouvir conversas sussurradas sem voz. Os mortos nunca falam do passado. Apenas de futuros alternativos.

É sempre ela quem primeiro desvia o olhar.

Não sou imortal por definição mas neste mundo tenho imunidade diplomática à morte.
Subo a íngreme ladeira com uma ligeireza reveladora da ajuda dos santos.
Os jovens fazem  uma pausa para descanso. Os carros necessitam de uma segunda, tal como eu… de uma segunda oportunidade para negociar a minha morte com a Vida, já que não me é possível negociar a vida com a Morte.
Alcanço, com passos introspetivos, a ultima das portas. É lá que finalmente a vou encontrar.
Mas… se não é aqui?
É aqui sim.
Sente-se a presença avassaladora de um universo materializado numa forma que se expande e se recolhe em explosões de contornos e linhas de horizontes só visíveis aos mais preparados.
Mas… se não estiver em casa?

Se não estiver há-de chegar... a Vida sempre chega, mais cedo ou mais tarde.

A sombra

O sabor ligeiramente salgado daquele líquido morno, fluido, que lhe invadia a boca e descia pela garganta, trazia-lhe reminiscências de memórias de um prazer adjacente à alimentação. Algo mais do que a satisfação de uma necessidade básica de sobrevivência.
Eram recordações perigosas para alguém na sua condição.
Nunca voltaria a ser o que antes fora e desejá-lo retardava a sua evolução dentro da forma atual.
Este fraquejo, momentâneo, trouxe-lhe uma revolta interior que logo se transformou em irritação. Largou o braço da vítima com desprezo, como se assim arrancasse definitivamente todas as metástases que ainda lhe faziam aflorar o passado ao pensamento, como um tumor que teima em continuar a crescer mesmo depois de cortado.
O sangue jorrou da artéria sujando-lhe o rosto e a roupa.
Estava ainda viva?

Mais algumas golfadas de sangue emergiram daquele braço inerte.
A sua mão direita ainda apertava aquele pescoço frágil de mulher. Voltou o olhar para aquele rosto de olhos muitos abertos e fixos de espanto, de medo. A boca entreaberta parecia ainda querer expulsar o grito que ficara bloqueado na garganta apertada. Mas os lábios estavam imóveis, mudos. Estava morta. Porque não haveria de estar? Sempre sucumbiam ao terrível poder da sua mão. As unhas, garras, apenas afloravam a pele. O que os derrotava, homens, mulheres, mais velhos ou mais novos, era o aperto. Morriam por asfixia.
O que teria de diferente esta mulher? Tentara libertar-se daquela mão, como sempre fazem. Tivera os espasmos que sempre têm. Depois imobilizara-se, como sempre se imobilizam.
Até hoje nunca olhara o rosto deles depois de se alimentar. Sempre partia sem sequer olhar para trás. Tê-lo feito deixava-o pouco à vontade. Não gostava de alterar a ordem habitual dos acontecimentos.
A imagem do rosto daquela mulher levou-o novamente ao passado onde, envolto numa névoa ténue, outro rosto de mulher lhe sorria, lhe dizia palavras que não ouvia mas adivinhava o significado. Desse rosto parecia sentir um calor que passava para o seu próprio rosto, uma suavidade que acalmava o seu espírito.
Estendeu a mão para o acariciar. Então o rosto contorceu-se, o sorriso deu lugar a uma expressão de terror e os olhos, que antes pestanejavam suavemente, tornaram-se fixos e enormes. Via a sua mão destroçar aquela garganta. Queria parar mas a mão possuía uma vontade própria.
Daqueles olhos agora inexpressivos ainda rolaram algumas lágrimas antes do calor dar lugar ao frio.
Frio. O presente era um corpo frio, o seu, que se alimenta tornando frios outros corpos.
Porque o atormentavam agora estas memórias? Já tantos anos tinham decorrido desde que o calor o havia abandonado.

Limpou a boca com um gesto rude da mão, levantou-se e começou a andar sem olhar para trás tentando assim um retorno definitivo à normalidade das coisas. Aquela rua era quase tão escura como a sombra do que fora, antes, a sua alma. Os seus sentidos, sublimados pela sua actual condição, mantinham-no informado de todos os detalhes sonoros, olfactivos, visuais. Sabia que não havia ninguém ao longo de todo o caminho.
Ao fundo, numa pequena janela, cintilava uma luz fazendo distorcer a imagem do contorno do telhado.
 Distorcer? Era impossível a sua visão ser distorcida. Um instinto residual fez com que levasse os dedos aos olhos.
Espanto, fúria, medo, esperança, todos estes sentimentos lhe percorreram o corpo reunindo-se num grito, num rugido, num uivo que gelou o sangue das criaturas que o ouviram.

Os olhos estavam molhados.

O gato que uiva

Aquele som ecoava dentro da minha cabeça como se não encontrasse uma saída.
Provocava-me uma angústia crescente que me impedia de concentrar. Não conseguia terminar a sub-rotina de paginação de ecrã, não tinha avançado uma linha sequer na última meia-hora.
Tinha de fazer alguma coisa, mas não sabia como. Aquele estúpido medo do ridículo, que sempre chega nestas situações, paralisava-me na cadeira.
Já era o segundo dia em que aquele miado, que mais parecia um uivo, se fazia ouvir. Primeiro com largos intervalos de silêncio. Mas nas últimas três horas os intervalos vieram a tornar-se cada vez mais curtos e o tom cada vez mais desesperado.
Sabia bem do que se tratava. Algum filhote de gato estava abandonado, provavelmente por morte da mãe. O som vinha directamente do telhado por cima do centro de informática. Era vulgar os gatos usarem os sotãos daquele edifício antigo como ninho ou como terreno de caça. Havia sempre zonas em que a partir do telhado podiam entrar no sótão por algum espaço entre as telhas, ou por algum buraco resultante da corrosão das caleiras.
“Ninguém vai fazer nada?” Perguntou um dos meus colegas, pelos vistos também perturbado com a situação. Era a deixa que eu precisava. “Vamos lá os dois. Trás uma das caixas vazias do papel de impressora.” Éramos dois, era menos provável cair no ridículo assim, foi o pensamento que me surgiu imediatamente, tão imediatamente como perceber logo que ridículo era o pensamento em si.
Através da janela de um gabinete vizinho que dava acesso ao telhado, saímos os dois para um pequeno terraço, cerca de dois metros abaixo do telhado.
Mal saí senti o impacto do terrível calor que fazia naquela área. Um Sol de Junho implacável aquecia as telhas e naquela zona, por estar cercada por paredes em toda a volta formando uma espécie de quadrado, não soprava nem uma brisa.
Tínhamos levado uma cadeira para ser mais fácil subir do terraço para o telhado. Como eu era o mais leve dos dois cabia-me a mim essa parte da missão. Não foi difícil. Encontrava-me já no telhado, pedindo a caixa de cartão, sentindo já uma refrescante brisa, quando me perdi na vista privilegiada que se me oferecia daquele ponto. O rio Douro correndo manso como é normal nesta época do ano como se fosse uma pista entre aquelas duas pontes tão diferentes. A ribeira do Porto, que apesar da caótica aglomeração dos velhos edifícios e do mau estado das suas fachadas, nos comove sempre com uma beleza que sentimos sem saber explicar. Do mar chegava já uma névoa rasante às águas do rio que fazia esbater a paisagem para lá da ponte da Arrábida como se de uma aguarela se tratasse.
Não sei quanto tempo estive hipnotizado pela beleza da vista que se me deparava mas fui violentamente acordado por mais um miado, digo uivo, que me fez recordar o propósito que ali me levara.
Mesmo atrás de mim, aí a uns três metros, lá estava ele, ou ela, ainda não sabia.
Aproximei-me com bastante cuidado, não fosse partir alguma ou algumas telhas daquele velho telhado e ir parar não sabia bem onde. Percebi que se tratava de um filhote que teria no máximo uma semana. Ainda trazia agarrado o cordão umbilical, embora já seco. Tinha os olhos abertos mas percebia-se que ainda não via. Ele sabia que eu me aproximava mas não olhava exactamente na minha direcção. Aquele ser tão minúsculo, metade do meu pé, tomava agora uma postura agressiva eriçando o pêlo e emitindo aqueles silvos que os gatos emitem quando ameaçados e que, aparentemente, assustam alguns animais de maior porte pela sua semelhança com o som que as serpentes emitem em circunstâncias semelhantes.
Não pude deixar de admirar a coragem daquele pequeno animal, praticamente um recém-nascido, esfomeado, provavelmente já a começar a ficar desidratado, “morto” de medo, que sentindo uma ameaça que não conseguia identificar a enfrentava com aquilo que tinha. Foi naquele momento, percebo agora, que as nossas vidas se ligaram. Peguei nele do mesmo modo que a mãe o faria, pelo pescoço. Era um “ele”.



Mais tarde, já em casa, depois de ter limpo o pequeno filhote de gato com um pano húmido, de o ter alimentado através de uma seringa com leite diluído em água, ao observá-lo a dormir, com um aspecto incomparavelmente melhor do que o tinha que ainda pouco tempo atrás, começava a tomar consciência do que tinha feito e no que me tinha metido.
Morava num terceiro andar, sem acesso a terraços, nem com outro acesso à rua que não fosse o da entrada principal do prédio. Não era uma situação recomendável para ter um gato. Sempre tivera gatos em casa dos meus pais e eles sempre passavam pelo menos tanto tempo no exterior como em casa mas aí tinham acesso a terraços por onde podiam ir para onde quisessem.
A próxima etapa, a que me inquietava mais, dizia respeito ao modo como informar a minha mulher desta situação, decidida unilateralmente, sem provocar nenhuma crise conjugal nem me obrigar a recuar na minha decisão. Tinha a consciência que seria difícil contra argumentar se me fossem desfiadas “todas as razões que me tiravam a razão”.
Resolvi apresentar o caso como uma situação provisória, “é só até encontrarmos um dono para ele”, disse eu. Funcionou.
O gatinho ficava no sotão, num ninho que o circunscrevia a um espaço limitado, onde não se poderia magoar. Durante o período do dia que correspondia ao meu horário de trabalho o gato ficava completamente sozinho e sem alimento. Deixava-lhe uma taça com água mesmo sabendo que era ainda incapaz de beber sozinho. O sótão era quente, pelo menos servia para ele se molhar quando, nas suas deambulações pelo ninho, tropeçava na taça. Mas não pensem que o animal passava fome. Alimentava-o por cinco vezes em cada 24 horas. Três vezes desde que chegava até me deitar. Uma vez a meio da noite e outra de manhã antes de sair para o trabalho. Além disso desde que chegava até me deitar estava sempre com ele dando-lhe o carinho que ele necessitava para ganhar confiança e ultrapassar o trauma sofrido. Por esta altura já a minha mulher, com aquele instinto maternal de todas as mulheres (um bebé é um bebé), disputava comigo a possibilidade de o ter ao colo enquanto víamos televisão.
Impunha-se um nome. Ora o gato, apesar de bebé, parecia defecar quantidades de fezes equivalentes ao seu próprio peso, fruto, se calhar, de uma alimentação à base de leite de vaca, embora diluído. Essa característica deu-me a original ideia de lhe chamar Cagão. Apesar dos veementes protestos da minha mulher (que num primeiro momento fraquejou por pensar que se tratava de uma brincadeira) Cagão foi o seu nome.
Cagão cresceu saudável e tornou-se um belíssimo gato pardo com belas riscas pretas tipo tigre e olhos invulgarmente grandes e redondos para gato, que lhe conferiam uma expressão inteligente e quase humana. Toda a gente elogiava a sua beleza, mesmo aqueles que não apreciavam particularmente os gatos. Tornou-se um jovem adulto e o seu território era todo o sótão, que tinha a mesma área da casa, e toda a casa.
Quando se tornou claro que já havíamos encontrado donos para o Cagão e que esses donos éramos nós, a minha mulher insistia para que ele fosse castrado. Sempre consegui fazer valer os meus argumentos e evitar tal mutilação ao animal explicando que sendo ela mulher não conseguia compreender toda a extensão do significado literal de castração.
O Cagão fazia agora parte das nossas vidas como mais um membro da família. Tudo corria bem. Fazia as suas “necessidades” no caixote de areia, não estragava demasiadas coisas, era uma boa companhia e um gato original (gostava de amendoins por exemplo).
Mas eu sabia o que tinha, mais tarde ou mais cedo, de acontecer.
Foi numa noite de Fevereiro que sonhei com a tarde em que recolhi o Cagão, levado até ele por aqueles miados que pareciam uivos. No meu sonho os uivos não pararam mesmo depois de pegar nele. Continuavam na minha cabeça, angustiando-me, parecendo distantes e próximos ao mesmo tempo. Acordei. Por momentos não percebi bem se estava acordado ou ainda a sonhar porque ainda os ouvia. Mas estava acordado. E ouvia-os.
Estava a acontecer.




O Cagão, agora adulto, sentia através do telhado os cheiros que lhe vinham do exterior, e nesses cheiros, alguns em particular foram-lhe despertando a natureza da sua condição de gato macho e, sem saber bem porquê, chamava por algo. Chamava com todas as forças dos seus pulmões como antes fizera chamando pela mãe. Mas não era a mãe que ele chamava agora.
Isto repetia-se noite após noite. Se eu me levantasse e o chamasse ele vinha por momentos saudar-me mas logo voltava para o seu lamento, sem saber porquê nem o que fazia. Uma força maior que a dele chamava-o também sem que nós percebêssemos.
De início preocupava-me que os vizinhos fossem incomodados mas o facto de ele escolher o sotão para o seu triste lamento (talvez porque estivesse em contacto com o ar exterior) fazia provavelmente com que não fosse ouvido noutras casas, ou se fosse, soaria como mais um dos gatos que, na rua, cumpriam o seu ritual de apaixonados.
Tinha eu já decidido que o Cagão necessitava de companhia quando se deu um inesperado e chocante acontecimento.
Uma manhã de sábado fui subtraído às minhas reflexões existenciais, que sempre tenho enquanto faço a barba, por um barulho contínuo que parecia o de alguém que caíra ao chão e que, depois de se levantar, continuava a cair. Saí imediatamente do quarto-de-banho e deparei-me com o Cagão no chão do corredor, com violentos espasmos. Tentava levantar-se mas visivelmente sem controlo de si próprio voltava a cair, sempre com espasmos nos membros e sem controlo do pescoço. Após um primeiro momento de choque, imediatamente lhe segurei a cabeça de modo a não se magoar e tentei segurá-lo na posição de deitado. Felizmente já tinha lido alguma coisa sobre este tipo de convulsões em gatos e lembrava-me que normalmente não duravam mais que um minuto. Assim foi. Nem um minuto passou quando o Cagão começou a ter menos espasmos e, a pouco a pouco, recuperar o controlo motor.
Este tipo de situação enquadrava-se no que se chama “crise epiléptica”. Podia ter sido pontual ou podia ter continuidade. Vários podiam ser os motivos. Tinha de o levar ao veterinário.
Quando coloquei o Cagão na jaula de transporte já ele estava completamente bem, nem parecia que lhe sucedera algo tão assustador.


Como era sábado dirigi-me a uma clínica veterinária no Porto.
Instantes antes de chegar à recepção lembrei-me que provavelmente iriam querer fazer um registo do animal e para isso quereriam saber o nome. Ainda me passou pela cabeça indicar outro nome mais “normal”. Mas pensando melhor, não. Afinal, era um nome que saía da vulgaridade dos tarecos, ou pantufas, ou nomes de jogadores da bola. Eu era uma pessoa criativa. Era até uma oportunidade de brilhar.
Quando a recepcionista, tal como eu previra, me perguntou “O nome do gatinho?” coloquei um sorriso bem confiante e o meu melhor “ar de malandro” para responder “O gatinho chama-se Cagão”. A menina baixou os olhos para o teclado sem “dar parte de fraca” enquanto um miúdo, que estava atrás de mim segurando uma gaiola com um hamster, soltava uma gargalhada que provocou o silêncio em pessoas e bichos que aguardavam na sala de espera.
Sentei-me. Coloquei a jaula por baixo da cadeira, tapada ainda pelas minhas pernas, não muito seguro das boas maneiras que me tinham dito existirem entre os animais quando estão na sala de espera de um veterinário. Entre um olhar desconfiado ao perdigueiro à minha direita e outro ao caniche à minha esquerda ia-me apercebendo, sem prestar atenção, que algumas pessoas iam sendo chamadas pela menina da recepção, mesmo em frente a mim, e se dirigiam a algumas das salas de consultas. Estava bastante gente.
Desta vez a recepcionista pareceu fixar-me. Já devia ser a minha vez. Óptimo.
Pareceu-me vê-la desenhar um sorriso pleno de confiança, pôr o seu melhor “ar de malandra”…a vingança serve-se fria, ainda consegui pensar, percebendo qual seria o inevitável desfecho.

“O Cagão!” chamou ela.

Podem imaginar a reacção daquela sala de espera, adultos, crianças (até os animais, me pareceu na ocasião), quando me levantei como resposta aquela chamada.

Peculiar…

Quando acordou, acordou com 40 anos. Estranha sensação aquela de ter 40 anos e não se sentir nos 30 sequer.
Parecia-lhe faltar tanto tempo, tantas coisas, tantos sonhos por realizar, objectivos por cumprir, etapas a vencer. Não era assim que imaginara ser, ter 40 anos.
Se calhar apenas se recusava a envelhecer. Um estranho feitiço impedia-o de envelhecer.
Sentia-se como alguém que está sempre sóbrio. Como se vivesse no meio do vinho mas nunca o bebesse. Se calhar devia beber de vez em quando. Se calhar de vez em quando devia trocar a sobriedade pela audácia de não ficar sóbrio.
Peculiar forma de acordar aquela. De acordar e de viver.

Tinha adormecido a reflectir sobre o silêncio, ou melhor, sobre os silêncios. Chegara à conclusão que existem muitas formas de silêncio. O silêncio absoluto, concluiu, não existe, pelos menos em vida. Mesmo no espaço, onde à partida poderíamos pensar que não ouviríamos nada, ouvimos sempre pelo menos o bater do nosso coração.
A sua experiência de um silêncio agradável levava-o para momentos em que, na ausência de ruído, somos envolvidos por aqueles sons que normalmente são ignorados. Levava-o para uma encosta afastada de uma aldeia, onde o silêncio é o som do vento na erva dourada de uma paisagem de verão, é o som de um lagarto que nessa mesma erva se move em direcção a uma pedra onde ficará a aquecer-se, é o som dos chocalhos das vacas que não se vêem mas se sabe que pastam num lameiro do lado oposto daquele monte, de uma abelha que passa perto com as patas carregadas de pólen, que no seu trabalho de obreira desenvolve também, sem saber, um trabalho de poeta, sendo portadora de Sonetos de Amor entre as flores e a responsável pelos frutos que daí resultam.
Que maravilhoso silêncio o destes sons.
Mas existiam mais silêncios.
O silêncio da solidão no meio do barulho da multidão. O silêncio da ausência de respostas. O silêncio entre dois.
Fixara-se mais neste último. Nunca fora dos que achavam que quando duas pessoas estão juntas o silêncio por ausência de conversa é um embaraço, que significa que já não existe nenhum tema entre eles, que se esgotou o tempo daquele encontro ou daquela relação. Sempre achou preciosos os momentos de silêncio entre dois. Momentos em que podiam desfrutar de cada um ao pormenor, onde podiam saborear o detalhe de cada expressão, de cada contorno do rosto, de cada brilho do olhar, de cada tom da face.
Parecera-lhe sempre que o silêncio entre dois era mais o oposto. Quando falamos apenas para nós próprios porque gostamos de nos ouvir, quando deixamos de ouvir o que o outro diz porque já estamos fartos, quando falamos circunstancialmente e nem nós próprios nos ouvimos, quando… quando ficamos distraídos e deixamos de ouvir a música para ouvir apenas os ruídos. Esse sim era o silêncio que o assustava.
Mais silêncios havia. Adormeceu a tentar fazer uma compilação de silêncios.

Peculiar forma de adormecer aquela. De adormecer e de viver.

No meio da estrada

Ficar parado no meio da estrada não é muito saudável. Caminhar pelo meio da estrada também não. Ficar parado talvez seja um mal menor. Facilitamos a vida a quem tiver que se desviar de nós e ficamos mais perto do local onde nos desviamos do caminho certo, do último sítio onde estivemos numa posição favorável, isto é, num lado ou noutro, mas não no meio da estrada.


Caminhava sem orientação, pés molhados, cabelo molhado. Chovia muito e o vento era forte. Os olhos também molhados, mas não da chuva, não conseguiam ver o chão que pisava. A escuridão era total.
Não conseguia lembrar-se de nenhum rosto, nenhum nome. Nenhum. Pior que isso, não conseguia lembrar-se de quando ainda se lembrava.
Não sabia onde estava nem porque estava ali. Sabia quem era, isto é, sabia o que era. Não sabia o seu nome mas sabia que era uma pessoa. Pelo menos achava que sim. Sabia identificar as sensações. Frio, fome, desconforto, medo… angústia. Essa sensação estava sempre com ele. Sabia que se chamava angústia. Uma mistura de medo com tristeza sem saber qual a razão. Seria devido a um acontecimento passado, pela possibilidade de um acontecimento vir a ocorrer ou pela não ocorrência de algo esperado?
Não conseguia ver em nenhuma direcção tal era a escuridão. Queria sair dali. Queria correr mas as pernas não obedeciam. Pareciam pesar toneladas. Mal as conseguia arrastar. No entanto tinha a sensação que poderia sair dali a qualquer momento. A angústia transformava-se em desespero, em pânico. Tinha uma pressão em cima do peito e nem gritar conseguia. Estava em pé mas sentia-se deitado de encontro ao chão sem conseguir mover-se, como se estivesse soterrado. Caía. Tinha a certeza que caía. Estava ali em pé, paralisado, mas sentia-se cair cada vez mais depressa, em aceleração alucinante. E rodopiava. Ou tudo rodopiava em torno dele. A qualquer momento ia dar-se o terrível impacto. O seu corpo contra o solo. Mas que solo? Onde estava? Podia sentir a dor que se aproximava a uma velocidade cada vez maior. Ia morrer. Queria gritar mas não saía qualquer som da sua garganta. Ia morrer …

Acordou sentado e ofegante. Todo o corpo estava encharcado em suor. Os olhos também estavam molhados mas não de suor. A boca estava seca. Parecia-lhe ter gritado, mas ao seu lado a sua mulher dormia tranquilamente. Certamente teria acordado se tivesse gritado.
Levantou-se e saiu do quarto rapidamente. Tinha frio. Voltou para trás e vestiu o roupão. Acendeu a luz do corredor e dirigiu-se para a cozinha. Mais luz. Sair da penumbra trouxe-lhe algum conforto. Pouco a pouco deixava de sentir frio, deixava de sentir aquela angústia tenebrosa. Continuava a sentir fome. Escolheu uma maçã, sentou-se num banco da cozinha e enquanto comia dirigiu o olhar para o relógio na parede, à sua direita. Três e vinte da madrugada.
Alguns meses atrás nunca se imaginaria a comer uma maçã a meio da noite roubando minutos preciosos ao já não muito extenso tempo de descanso. Hoje, um professor “não colocado”, um dos oitocentos e muitos mil desempregados, não tinha que se preocupar com o tempo que o seu cérebro tinha para descansar mas com o que faria para o manter activo e bem ocupado.
Seria esta situação que lhe provocava este pesadelo recorrente? Isso podia explicar a angústia, a queda. Havia alguma lógica em associar a queda ao retrocesso na sua situação profissional, a angústia à incerteza quanto ao futuro. Não era nenhum psicanalista mas parecia-lhe existir alguma lógica nessas associações. A lógica é um modo de vida para um professor de matemática. Mas não se lembrar do seu nome, nem do nome de ninguém, nem sequer dos rostos de quem lhe era mais próximo…Porquê? Seria ele no sonho um clone a quem se tinham esquecido de implantar memórias de um passado falso, como faziam nos filmes sobre o tema, tão em voga no fim dos anos noventa?
Este pensamento trouxe-lhe um sorriso. O sorriso trouxe-o de volta para um estado de “normalidade”. Deitou-se novamente e adormeceu sem dificuldade.

Saiu de casa à hora habitual. Com todo o cuidado evitou os “cocós” que polvilhavam o passeio. Reprimiu um sentimento de raiva, não contra os cães coitados, mas contra quem os traz à rua para que aí façam as suas necessidades sem nunca tratarem de as limpar e claro, sem se darem ao trabalho de evitar que sejam feitas em cima do passeio. É por isso que sempre os levam para longe da sua própria porta. Uma parte de si tentava desculpabilizar este tipo de pessoas que certamente seriam também vítimas da sua própria ignorância. Outra parte de si, uma parte bem maior, negava a desculpabilização arremessando violentamente e sem qualquer tolerância a palavra estupidez e apagando a palavra ignorância. No meio deste conflito interior conseguiu chegar ao carro sem que fosse necessário voltar a casa para trocar de sapatos.
Enquanto conduzia em direcção ao café onde todas as manhãs tomava a sua dose de cafeína e se punha a par do que de mais relevante acontecia no país e no mundo, por detrás do praguejar contra condutores que não sinalizavam com “o pisca” a mudança de faixa de rodagem e do gesticular obsceno aos estacionados em segunda fila, o seu pensamento voltava-se para os acontecimentos dessa madrugada. Aquela situação de total amnésia em que se via no pesadelo assombrava-o mais que o pesadelo em si. Qual a associação? Porquê a recorrência? Incomodava-o não conseguir uma explicação lógica.
Quando saiu do carro em direcção ao café passou como habitualmente por um “sem-abrigo” bastante idoso que normalmente àquela hora arrumava os cobertores que o tinham protegido do frio nocturno numa das caixas de cartão que lhe serviam de telhado ou de cama, não sabia bem, e como habitualmente deixou-lhe um euro no recipiente usado para esse fim.
Há muito tempo que passava por este idoso mas de facto só começara a reparar nele e deixar-lhe “a moedinha” desde que se encontrava desempregado. Era um facto para o qual a estrutura do seu pensamento não tinha dificuldade em encontrar uma lógica. “Obrigado doutor. Que Deus o proteja.” disse o velhote por entre um sorriso sem dentes. Nessa manhã, sem qualquer razão aparente ocorreu-lhe que apesar de passar por aquela pessoa praticamente todos os dias não sabia o seu nome. “Como é que senhor se chama?” perguntou devolvendo o sorriso. O sorriso do velhote desapareceu imediatamente. Baixou os olhos e continuou a arrumar os cobertores, sem responder. “Eu só perguntei para o poder cumprimentar devidamente, já que aqui passo todos os dias. Evidentemente que tem todo o direito de não responder. Não lhe levo a mal.” Com algum desconforto virou costas e seguiu para o café.
“Não me lembro…”
 Voltou-se. Viu uns olhos com água mas sem brilho que deixavam a descoberto uma tristeza contagiante. Uma boca sem dentes que movia uns lábios que tinham dificuldade em se descolarem um do outro balbuciava de forma quase inaudível. “Não me lembro de nada. Não me lembro de ninguém. Nem nomes, nem rostos… Não me lembro nem de quando ainda me lembrava.”



Quando sabemos para onde queremos ir tomar o caminho mais curto é importante se tivermos pressa de chegar mas… não será o percurso mais importante que o destino final?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Ironia da justiça ou justiça da ironia?

…Não pôde evitar um sorriso. Mais um esgar que um sorriso. Já há muito que os músculos faciais responsáveis por esse gesto, tão representativo de emoções e segundo alguns também do carácter humano, tinham atrofiado por falta de uso nessa função e conferido ao seu fácies um aspecto duro e ameaçador.
Sabia que havia uma palavra que descrevia exatamente aquela situação mas não conseguia lembrar-se qual era.

Tinha uma relação difícil com as palavras. Mesmo antes de deixar de estudar, na quarta-classe, não lhe era fácil, como a outros, fazer uma redacção. Mesmo que tivesse alguma ideia era para ele um mistério como a colocar no papel. Uma só frase era um castigo. Faltavam-lhe as palavras, faltava-lhe a vontade de as procurar.
Palavras. Queria lá saber. O professor, que era daqueles “da velha guarda”, quase em idade de se reformar, avisava-o em tom de ameaça que assim nunca iria ser ninguém na vida. Ia acabar nas obras ou na prisão. Na prisão já ele estava. Queria era sair dali, daquela sala que o abafava. Queria “tratar de vida” como dizia sempre. Roubar fruta na quinta do velho Gonçalves, “sacar” os dísticos de marca dos automóveis estacionados, ou simplesmente não fazer nada que era igual a fazer o que quisesse. Deixar-se ficar deitado na sua ponte, uma passagem para peões sobre a via-rápida, onde se sentia acima de toda a humanidade, fumando os cigarros que tinha cravado ou as beatas que tinha encontrado. Às vezes ficava na tasca a ver os duelos acesos de dominó ou de sueca. Não tinha interesse nenhum por esses jogos mas a tensão latente daqueles momentos, o silêncio nervoso seguido de explosões de fúria de uns, de regozijo outros, as provocações, acusações, insultos e, se tivesse sorte, uma briga a sério, exerciam nele um fascínio mágico. Conseguia sempre que alguém lhe pagasse um copo de maduro, uma taça de espumoso ou até uma cerveja… Achavam graça ao puto de dez anos que bebia como um deles.
A bebida aquecia-o para além do corpo. Sentia-se bem ali, quente, abrigado, rodeado de gente que parecia apreciar a sua presença. Sentia-se numa casa, numa família. Já tinha ouvido falar dessas coisas.
Tudo isso è passado longínquo. Sempre “tratou de vida” sem precisar de ninguém.
Uns auto-rádios, uns telemóveis pousados descuidadamente, comércio a retalho de algumas substâncias ilegais, coisa pouca, que isso não era algo que lhe agradasse muito. Era mais o risco que o lucro e pior que isso, não lhe dava o prazer do roubo. Não lhe trazia aquelas sensações de medo misturado com excitação, de audácia misturada com loucura, de execução de uma ideia repentina, assim mesmo, sem precisar de palavras nem muito menos de as pôr num papel. O sabor de uma vitória.
De dia para dia sentia-se imparável, invencível. Então aconteceu.
Tal como um artista que num momento de êxtase criador realiza a obra-prima que o imortaliza, ou um atleta que numa competição encontra aquela rara sensação de perfeição e força que faz com que não falhe e com cada sucesso, em efeito bola de neve, se torna ainda mais infalível, ele encontrou o seu destino, a sua imortalidade.
Começaram por ser duas casas de bairro de subúrbio, sem grande dificuldade, sem grande lucro, mas com grande excitação. Donos em férias, não havia alarmes, fechaduras precárias. Tudo fácil. Demasiado. Queria mais.
Foi subindo a parada. Moradias pequenas. Pequena burguesia. Compradas com empréstimos a 35 anos. Estas tinham alarme, mas durante o dia ninguém o ligava e havia sempre períodos de tempo em que estavam absolutamente vazias.
Não conseguia parar. Era como um frenesim predador. Ia subindo a ambição. Subia no nível dos bairros, das moradias, atrevia-se mesmo a assaltar algumas com gente em casa. Já não conseguia vender o produto dos roubos ao mesmo ritmo em que o obtinha.
A barraca que lhe servia de casa estava atafulhada de leitores de dvd, HiFi, computadores, plasmas, joias, algumas armas e munições, tudo produtos de assaltos que ainda não tinha conseguido vender. O instinto dizia-lhe que era um erro, não porque receasse ele próprio ser assaltado, mas porque talvez começasse a dar nas vistas e, pior que isso, estava a acumular provas que poderiam ser usadas contra si próprio se algo corresse mal.
Mas o que é que podia correr mal? Ele era imparável! A prova é que nem ele conseguia parar, parar-se.


Claro que este destino de ser português, este fado de vida que faz com que a sombra se atravesse sempre na frente da luz, estes provérbios como “não há bela sem senão”…estava mesmo a ver-se que não podia durar sempre.
Chegou ele com a carrinha comercial de dois lugares, a diesel, comprada em 15ª mão, porque não podia andar a conduzir um carro roubado todos os dias sem atrair demasiado as atenções, dizia eu, chegou ele com produto de mais um assalto perfeito, abriu a porta da barraca, começou a descarregar e nem teve tempo de dizer “não fui eu”. Caiu-lhe o mundo em cima. Agentes da P.S.P, inspectores da Judiciária, luzes, gritos, armas apontadas. Estava no chão, estava algemado, metiam-no num carro, arrancavam em grande velocidade, sirenes, mais luzes. Parecia que via tudo do lado de fora do corpo, como se estivesse a ver-se a si próprio e a toda a cena de um elevador panorâmico que ia subindo lentamente até que já não viu mais nada.
Interrogatórios, ameaças, dias e noites numa cela, nada lhe importava.
Não sentia vontade de nada. Parecia que tinha regressado à velha sala de aula e queriam obrigá-lo a organizar ideias em palavras, palavras em frases, escrevê-las num papel, “assina, confessa”, sentia-se abafado. Era difícil respirar. Mas nada lhe interessava. Afinal não era imparável, não era imbatível. Bastou um reles “chibo” para acabar com ele.
Estava agora numa sala ampla, sentado. Havia um tipo que falava com ele como se o conhecesse mas ele não o conhecia. Mandaram-no levantar quando outro tipo vestido com uma espécie de vestido preto entrou. Era o velho professor? Não … esse já tinha morrido. Alguém disse um nome “não-sei-o-quê íssimo Juiz Bruno Crata”.
O homem estava com cara de poucos amigos. Resmungou qualquer coisa sobre o automóvel ter ficado estacionado na rua por ter deixado o cartão do parque num bolso do sobretudo que fora para a lavandaria. Cartão do parque? Não entendia nem lhe interessava.
O homem do vestido sentou-se e todos se sentaram. Desligou-se daquele lugar. Ia captando algumas frases “apanhado em flagrante na posse de objectos roubados…guarda de objectos roubados…249 casas assaltadas”. Não era com ele. Tinha a certeza que tinham sido só 195. Mas que importava?
Pareceu-lhe agora que o levavam dali para fora. Flutuava. O praguejar dos polícias que o seguravam voltou a despertar-lhe os sentidos terrenos “não há motivos suficientes para prisão preventiva? …249 casas!!! 249!!! ... anda a gente a metê-los dentro para os porem outra vez cá fora… é isto a justiça?!” …podiam falar mais baixo.
O ar exterior entrou-lhe pelos alvéolos pulmonares como a aguardente pela garganta. Estava na rua. Os polícias já não o seguravam, “…’tas livre meu sacana. Agradece ao país que temos que liberta ladrões filhos-da-mãe como tu”. Falavam com ele? Livre? O sol estava a pique e obrigava-o a fechar os olhos. Ficou assim um momento, a aquecer o corpo. Para além do corpo.
Parecia que tinha outra vez dez anos e estava na tasca a beber um copo de vinho maduro e a espreitar uma “suecada rasgadinha”.
Recuperava aos poucos os sentidos. Não que tivesse desmaiado, mas parecia que tinha andado fora e agora regressava... ao corpo.
Começou a caminhar sem saber bem onde estava. A cada passo reconhecia-se. A vida regressava a cada passo. A vida. Tinha que “tratar de vida”.
Procurando a sombra meteu por uma rua estreita, sem passeio, com carros estacionados dos dois lados, o que a fazia ser ainda mais estreita.
Tropeçou num paralelepípedo solto e se não se apoiasse num dos carros estacionados tinha mesmo dado o que costumava chamar-se de “grande terno”. Depois de várias obscenidades insultuosas ao presidente da câmara pelo estado em que se encontravam as ruas o seu instinto predador chamou-lhe a atenção para o carro que lhe amparara a queda. Era de grande cilindrada, preto, vidros escuros, mas não o suficiente para impedirem de ver o interior. E o interior mostrava-lhe um auto-rádio bastante bom, sem contudo ser demasiado sofisticado. Talvez porque o carro embora sendo de grande cilindrada e qualidade era também já um pouco antigo. Isso explicava o auto-rádio não ser de origem. Tudo isto lhe fluía sem dificuldade quase instantaneamente. A sua vida naquele momento era aquele auto-rádio. Conhecia-o bem. O painel frontal era removível e não se encontrava colocado. Uma medida anti-roubo. Sem o painel o auto-rádio tinha tanta utilidade como umas rodas sem carro. Apostava o seu pescoço em como o painel estava dentro do tablier. Se ao menos tivesse com ele a sua velha alavanca pé-de-cabra para rebentar com o vidro. Estava ali mesmo o que necessitava para recomeçar a “tratar de vida”. Foi então que lhe surgiu, ali mesmo na cabeça aquela imagem, sem precisar de palavra, sem precisar de escrita, “O calhau! O calhau em que tropecei!” Olhou para trás e para baixo. Tinha tamanho mais que suficiente para rebentar completamente o vidro. Talvez não conseguisse fazer o trabalho através da janela, mas podia abrir a porta. Estava sozinho, não se via ninguém em toda a extensão daquela rua, a tal sem passeios e estreita, mais estreita ainda por ter carros estacionados dos dois lados. Quando chegasse alguém, alertado pelo alarme, ele já estaria “a milhas” que para correr para longe de alarmes nunca lhe tinha dado a preguiça.
Medo misturado com excitação. Audácia misturada com loucura. Execução de uma ideia repentina. Já estava dentro do carro com o alarme a rebentar-lhe os tímpanos. O auto-rádio saiu na perfeição. E o painel? É claro que estava no tablier. Foi ao sair, apesar da pressa, que vislumbrou uma placa de identificação que o fez deter-se apenas por um segundo. “Juiz Bruno Crata”.
Não pode evitar um sorriso, o tal que não era sorriso mas esgar por motivos já antes explicados.
Ia já a curvar a sua corrida, à saída da rua estreita, quando se lembrou da palavra. Pela primeira vez na vida uma palavra materializou-se na sua cabeça. A tal palavra que ele sabia existir e que descrevia perfeitamente aquela situação.

“Ironia!” disse em voz alta para que ele próprio a validasse. “Ironia!”.