terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O gato que uiva

Aquele som ecoava dentro da minha cabeça como se não encontrasse uma saída.
Provocava-me uma angústia crescente que me impedia de concentrar. Não conseguia terminar a sub-rotina de paginação de ecrã, não tinha avançado uma linha sequer na última meia-hora.
Tinha de fazer alguma coisa, mas não sabia como. Aquele estúpido medo do ridículo, que sempre chega nestas situações, paralisava-me na cadeira.
Já era o segundo dia em que aquele miado, que mais parecia um uivo, se fazia ouvir. Primeiro com largos intervalos de silêncio. Mas nas últimas três horas os intervalos vieram a tornar-se cada vez mais curtos e o tom cada vez mais desesperado.
Sabia bem do que se tratava. Algum filhote de gato estava abandonado, provavelmente por morte da mãe. O som vinha directamente do telhado por cima do centro de informática. Era vulgar os gatos usarem os sotãos daquele edifício antigo como ninho ou como terreno de caça. Havia sempre zonas em que a partir do telhado podiam entrar no sótão por algum espaço entre as telhas, ou por algum buraco resultante da corrosão das caleiras.
“Ninguém vai fazer nada?” Perguntou um dos meus colegas, pelos vistos também perturbado com a situação. Era a deixa que eu precisava. “Vamos lá os dois. Trás uma das caixas vazias do papel de impressora.” Éramos dois, era menos provável cair no ridículo assim, foi o pensamento que me surgiu imediatamente, tão imediatamente como perceber logo que ridículo era o pensamento em si.
Através da janela de um gabinete vizinho que dava acesso ao telhado, saímos os dois para um pequeno terraço, cerca de dois metros abaixo do telhado.
Mal saí senti o impacto do terrível calor que fazia naquela área. Um Sol de Junho implacável aquecia as telhas e naquela zona, por estar cercada por paredes em toda a volta formando uma espécie de quadrado, não soprava nem uma brisa.
Tínhamos levado uma cadeira para ser mais fácil subir do terraço para o telhado. Como eu era o mais leve dos dois cabia-me a mim essa parte da missão. Não foi difícil. Encontrava-me já no telhado, pedindo a caixa de cartão, sentindo já uma refrescante brisa, quando me perdi na vista privilegiada que se me oferecia daquele ponto. O rio Douro correndo manso como é normal nesta época do ano como se fosse uma pista entre aquelas duas pontes tão diferentes. A ribeira do Porto, que apesar da caótica aglomeração dos velhos edifícios e do mau estado das suas fachadas, nos comove sempre com uma beleza que sentimos sem saber explicar. Do mar chegava já uma névoa rasante às águas do rio que fazia esbater a paisagem para lá da ponte da Arrábida como se de uma aguarela se tratasse.
Não sei quanto tempo estive hipnotizado pela beleza da vista que se me deparava mas fui violentamente acordado por mais um miado, digo uivo, que me fez recordar o propósito que ali me levara.
Mesmo atrás de mim, aí a uns três metros, lá estava ele, ou ela, ainda não sabia.
Aproximei-me com bastante cuidado, não fosse partir alguma ou algumas telhas daquele velho telhado e ir parar não sabia bem onde. Percebi que se tratava de um filhote que teria no máximo uma semana. Ainda trazia agarrado o cordão umbilical, embora já seco. Tinha os olhos abertos mas percebia-se que ainda não via. Ele sabia que eu me aproximava mas não olhava exactamente na minha direcção. Aquele ser tão minúsculo, metade do meu pé, tomava agora uma postura agressiva eriçando o pêlo e emitindo aqueles silvos que os gatos emitem quando ameaçados e que, aparentemente, assustam alguns animais de maior porte pela sua semelhança com o som que as serpentes emitem em circunstâncias semelhantes.
Não pude deixar de admirar a coragem daquele pequeno animal, praticamente um recém-nascido, esfomeado, provavelmente já a começar a ficar desidratado, “morto” de medo, que sentindo uma ameaça que não conseguia identificar a enfrentava com aquilo que tinha. Foi naquele momento, percebo agora, que as nossas vidas se ligaram. Peguei nele do mesmo modo que a mãe o faria, pelo pescoço. Era um “ele”.



Mais tarde, já em casa, depois de ter limpo o pequeno filhote de gato com um pano húmido, de o ter alimentado através de uma seringa com leite diluído em água, ao observá-lo a dormir, com um aspecto incomparavelmente melhor do que o tinha que ainda pouco tempo atrás, começava a tomar consciência do que tinha feito e no que me tinha metido.
Morava num terceiro andar, sem acesso a terraços, nem com outro acesso à rua que não fosse o da entrada principal do prédio. Não era uma situação recomendável para ter um gato. Sempre tivera gatos em casa dos meus pais e eles sempre passavam pelo menos tanto tempo no exterior como em casa mas aí tinham acesso a terraços por onde podiam ir para onde quisessem.
A próxima etapa, a que me inquietava mais, dizia respeito ao modo como informar a minha mulher desta situação, decidida unilateralmente, sem provocar nenhuma crise conjugal nem me obrigar a recuar na minha decisão. Tinha a consciência que seria difícil contra argumentar se me fossem desfiadas “todas as razões que me tiravam a razão”.
Resolvi apresentar o caso como uma situação provisória, “é só até encontrarmos um dono para ele”, disse eu. Funcionou.
O gatinho ficava no sotão, num ninho que o circunscrevia a um espaço limitado, onde não se poderia magoar. Durante o período do dia que correspondia ao meu horário de trabalho o gato ficava completamente sozinho e sem alimento. Deixava-lhe uma taça com água mesmo sabendo que era ainda incapaz de beber sozinho. O sótão era quente, pelo menos servia para ele se molhar quando, nas suas deambulações pelo ninho, tropeçava na taça. Mas não pensem que o animal passava fome. Alimentava-o por cinco vezes em cada 24 horas. Três vezes desde que chegava até me deitar. Uma vez a meio da noite e outra de manhã antes de sair para o trabalho. Além disso desde que chegava até me deitar estava sempre com ele dando-lhe o carinho que ele necessitava para ganhar confiança e ultrapassar o trauma sofrido. Por esta altura já a minha mulher, com aquele instinto maternal de todas as mulheres (um bebé é um bebé), disputava comigo a possibilidade de o ter ao colo enquanto víamos televisão.
Impunha-se um nome. Ora o gato, apesar de bebé, parecia defecar quantidades de fezes equivalentes ao seu próprio peso, fruto, se calhar, de uma alimentação à base de leite de vaca, embora diluído. Essa característica deu-me a original ideia de lhe chamar Cagão. Apesar dos veementes protestos da minha mulher (que num primeiro momento fraquejou por pensar que se tratava de uma brincadeira) Cagão foi o seu nome.
Cagão cresceu saudável e tornou-se um belíssimo gato pardo com belas riscas pretas tipo tigre e olhos invulgarmente grandes e redondos para gato, que lhe conferiam uma expressão inteligente e quase humana. Toda a gente elogiava a sua beleza, mesmo aqueles que não apreciavam particularmente os gatos. Tornou-se um jovem adulto e o seu território era todo o sótão, que tinha a mesma área da casa, e toda a casa.
Quando se tornou claro que já havíamos encontrado donos para o Cagão e que esses donos éramos nós, a minha mulher insistia para que ele fosse castrado. Sempre consegui fazer valer os meus argumentos e evitar tal mutilação ao animal explicando que sendo ela mulher não conseguia compreender toda a extensão do significado literal de castração.
O Cagão fazia agora parte das nossas vidas como mais um membro da família. Tudo corria bem. Fazia as suas “necessidades” no caixote de areia, não estragava demasiadas coisas, era uma boa companhia e um gato original (gostava de amendoins por exemplo).
Mas eu sabia o que tinha, mais tarde ou mais cedo, de acontecer.
Foi numa noite de Fevereiro que sonhei com a tarde em que recolhi o Cagão, levado até ele por aqueles miados que pareciam uivos. No meu sonho os uivos não pararam mesmo depois de pegar nele. Continuavam na minha cabeça, angustiando-me, parecendo distantes e próximos ao mesmo tempo. Acordei. Por momentos não percebi bem se estava acordado ou ainda a sonhar porque ainda os ouvia. Mas estava acordado. E ouvia-os.
Estava a acontecer.




O Cagão, agora adulto, sentia através do telhado os cheiros que lhe vinham do exterior, e nesses cheiros, alguns em particular foram-lhe despertando a natureza da sua condição de gato macho e, sem saber bem porquê, chamava por algo. Chamava com todas as forças dos seus pulmões como antes fizera chamando pela mãe. Mas não era a mãe que ele chamava agora.
Isto repetia-se noite após noite. Se eu me levantasse e o chamasse ele vinha por momentos saudar-me mas logo voltava para o seu lamento, sem saber porquê nem o que fazia. Uma força maior que a dele chamava-o também sem que nós percebêssemos.
De início preocupava-me que os vizinhos fossem incomodados mas o facto de ele escolher o sotão para o seu triste lamento (talvez porque estivesse em contacto com o ar exterior) fazia provavelmente com que não fosse ouvido noutras casas, ou se fosse, soaria como mais um dos gatos que, na rua, cumpriam o seu ritual de apaixonados.
Tinha eu já decidido que o Cagão necessitava de companhia quando se deu um inesperado e chocante acontecimento.
Uma manhã de sábado fui subtraído às minhas reflexões existenciais, que sempre tenho enquanto faço a barba, por um barulho contínuo que parecia o de alguém que caíra ao chão e que, depois de se levantar, continuava a cair. Saí imediatamente do quarto-de-banho e deparei-me com o Cagão no chão do corredor, com violentos espasmos. Tentava levantar-se mas visivelmente sem controlo de si próprio voltava a cair, sempre com espasmos nos membros e sem controlo do pescoço. Após um primeiro momento de choque, imediatamente lhe segurei a cabeça de modo a não se magoar e tentei segurá-lo na posição de deitado. Felizmente já tinha lido alguma coisa sobre este tipo de convulsões em gatos e lembrava-me que normalmente não duravam mais que um minuto. Assim foi. Nem um minuto passou quando o Cagão começou a ter menos espasmos e, a pouco a pouco, recuperar o controlo motor.
Este tipo de situação enquadrava-se no que se chama “crise epiléptica”. Podia ter sido pontual ou podia ter continuidade. Vários podiam ser os motivos. Tinha de o levar ao veterinário.
Quando coloquei o Cagão na jaula de transporte já ele estava completamente bem, nem parecia que lhe sucedera algo tão assustador.


Como era sábado dirigi-me a uma clínica veterinária no Porto.
Instantes antes de chegar à recepção lembrei-me que provavelmente iriam querer fazer um registo do animal e para isso quereriam saber o nome. Ainda me passou pela cabeça indicar outro nome mais “normal”. Mas pensando melhor, não. Afinal, era um nome que saía da vulgaridade dos tarecos, ou pantufas, ou nomes de jogadores da bola. Eu era uma pessoa criativa. Era até uma oportunidade de brilhar.
Quando a recepcionista, tal como eu previra, me perguntou “O nome do gatinho?” coloquei um sorriso bem confiante e o meu melhor “ar de malandro” para responder “O gatinho chama-se Cagão”. A menina baixou os olhos para o teclado sem “dar parte de fraca” enquanto um miúdo, que estava atrás de mim segurando uma gaiola com um hamster, soltava uma gargalhada que provocou o silêncio em pessoas e bichos que aguardavam na sala de espera.
Sentei-me. Coloquei a jaula por baixo da cadeira, tapada ainda pelas minhas pernas, não muito seguro das boas maneiras que me tinham dito existirem entre os animais quando estão na sala de espera de um veterinário. Entre um olhar desconfiado ao perdigueiro à minha direita e outro ao caniche à minha esquerda ia-me apercebendo, sem prestar atenção, que algumas pessoas iam sendo chamadas pela menina da recepção, mesmo em frente a mim, e se dirigiam a algumas das salas de consultas. Estava bastante gente.
Desta vez a recepcionista pareceu fixar-me. Já devia ser a minha vez. Óptimo.
Pareceu-me vê-la desenhar um sorriso pleno de confiança, pôr o seu melhor “ar de malandra”…a vingança serve-se fria, ainda consegui pensar, percebendo qual seria o inevitável desfecho.

“O Cagão!” chamou ela.

Podem imaginar a reacção daquela sala de espera, adultos, crianças (até os animais, me pareceu na ocasião), quando me levantei como resposta aquela chamada.

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