Aquele som ecoava dentro da minha cabeça como se não
encontrasse uma saída.
Provocava-me uma angústia crescente que me impedia de
concentrar. Não conseguia terminar a sub-rotina de paginação de ecrã, não tinha
avançado uma linha sequer na última meia-hora.
Tinha de fazer alguma coisa, mas não sabia como. Aquele
estúpido medo do ridículo, que sempre chega nestas situações, paralisava-me na
cadeira.
Já era o segundo dia em que aquele miado, que mais parecia um
uivo, se fazia ouvir. Primeiro com largos intervalos de silêncio. Mas nas
últimas três horas os intervalos vieram a tornar-se cada vez mais curtos e o
tom cada vez mais desesperado.
Sabia bem do que se tratava. Algum filhote de gato estava
abandonado, provavelmente por morte da mãe. O som vinha directamente do telhado
por cima do centro de informática. Era vulgar os gatos usarem os sotãos daquele
edifício antigo como ninho ou como terreno de caça. Havia sempre zonas em que a
partir do telhado podiam entrar no sótão por algum espaço entre as telhas, ou
por algum buraco resultante da corrosão das caleiras.
“Ninguém vai fazer nada?” Perguntou um dos meus colegas,
pelos vistos também perturbado com a situação. Era a deixa que eu precisava. “Vamos
lá os dois. Trás uma das caixas vazias do papel de impressora.” Éramos dois,
era menos provável cair no ridículo assim, foi o pensamento que me surgiu
imediatamente, tão imediatamente como perceber logo que ridículo era o
pensamento em si.
Através da janela de um gabinete vizinho que dava acesso ao
telhado, saímos os dois para um pequeno terraço, cerca de dois metros abaixo do
telhado.
Mal saí senti o impacto do terrível calor que fazia naquela
área. Um Sol de Junho implacável aquecia as telhas e naquela zona, por estar
cercada por paredes em toda a volta formando uma espécie de quadrado, não
soprava nem uma brisa.
Tínhamos levado uma cadeira para ser mais fácil subir do
terraço para o telhado. Como eu era o mais leve dos dois cabia-me a mim essa
parte da missão. Não foi difícil. Encontrava-me já no telhado, pedindo a caixa
de cartão, sentindo já uma refrescante brisa, quando me perdi na vista
privilegiada que se me oferecia daquele ponto. O rio Douro correndo manso como
é normal nesta época do ano como se fosse uma pista entre aquelas duas pontes
tão diferentes. A ribeira do Porto, que apesar da caótica aglomeração dos
velhos edifícios e do mau estado das suas fachadas, nos comove sempre com uma
beleza que sentimos sem saber explicar. Do mar chegava já uma névoa rasante às
águas do rio que fazia esbater a paisagem para lá da ponte da Arrábida como se
de uma aguarela se tratasse.
Não sei quanto tempo estive hipnotizado pela beleza da vista
que se me deparava mas fui violentamente acordado por mais um miado, digo uivo,
que me fez recordar o propósito que ali me levara.
Mesmo atrás de mim, aí a uns três metros, lá estava ele, ou
ela, ainda não sabia.
Aproximei-me com bastante cuidado, não fosse partir alguma
ou algumas telhas daquele velho telhado e ir parar não sabia bem onde. Percebi
que se tratava de um filhote que teria no máximo uma semana. Ainda trazia
agarrado o cordão umbilical, embora já seco. Tinha os olhos abertos mas
percebia-se que ainda não via. Ele sabia que eu me aproximava mas não olhava
exactamente na minha direcção. Aquele ser tão minúsculo, metade do meu pé,
tomava agora uma postura agressiva eriçando o pêlo e emitindo aqueles silvos
que os gatos emitem quando ameaçados e que, aparentemente, assustam alguns
animais de maior porte pela sua semelhança com o som que as serpentes emitem em
circunstâncias semelhantes.
Não pude deixar de admirar a coragem daquele pequeno animal,
praticamente um recém-nascido, esfomeado, provavelmente já a começar a ficar
desidratado, “morto” de medo, que sentindo uma ameaça que não conseguia
identificar a enfrentava com aquilo que tinha. Foi naquele momento, percebo
agora, que as nossas vidas se ligaram. Peguei nele do mesmo modo que a mãe o faria,
pelo pescoço. Era um “ele”.
Mais tarde, já em casa, depois de ter limpo o pequeno
filhote de gato com um pano húmido, de o ter alimentado através de uma seringa com
leite diluído em água, ao observá-lo a dormir, com um aspecto incomparavelmente
melhor do que o tinha que ainda pouco tempo atrás, começava a tomar consciência
do que tinha feito e no que me tinha metido.
Morava num terceiro andar, sem acesso a terraços, nem com
outro acesso à rua que não fosse o da entrada principal do prédio. Não era uma
situação recomendável para ter um gato. Sempre tivera gatos em casa dos meus
pais e eles sempre passavam pelo menos tanto tempo no exterior como em casa mas
aí tinham acesso a terraços por onde podiam ir para onde quisessem.
A próxima etapa, a que me inquietava mais, dizia respeito ao
modo como informar a minha mulher desta situação, decidida unilateralmente, sem
provocar nenhuma crise conjugal nem me obrigar a recuar na minha decisão. Tinha
a consciência que seria difícil contra argumentar se me fossem desfiadas “todas
as razões que me tiravam a razão”.
Resolvi apresentar o caso como uma situação provisória, “é
só até encontrarmos um dono para ele”, disse eu. Funcionou.
O gatinho ficava no sotão, num ninho que o circunscrevia a um
espaço limitado, onde não se poderia magoar. Durante o período do dia que
correspondia ao meu horário de trabalho o gato ficava completamente sozinho e
sem alimento. Deixava-lhe uma taça com água mesmo sabendo que era ainda incapaz
de beber sozinho. O sótão era quente, pelo menos servia para ele se molhar
quando, nas suas deambulações pelo ninho, tropeçava na taça. Mas não pensem que
o animal passava fome. Alimentava-o por cinco vezes em cada 24 horas. Três
vezes desde que chegava até me deitar. Uma vez a meio da noite e outra de manhã
antes de sair para o trabalho. Além disso desde que chegava até me deitar
estava sempre com ele dando-lhe o carinho que ele necessitava para ganhar
confiança e ultrapassar o trauma sofrido. Por esta altura já a minha mulher,
com aquele instinto maternal de todas as mulheres (um bebé é um bebé),
disputava comigo a possibilidade de o ter ao colo enquanto víamos televisão.
Impunha-se um nome. Ora o gato, apesar de bebé, parecia
defecar quantidades de fezes equivalentes ao seu próprio peso, fruto, se
calhar, de uma alimentação à base de leite de vaca, embora diluído. Essa
característica deu-me a original ideia de lhe chamar Cagão. Apesar dos veementes
protestos da minha mulher (que num primeiro momento fraquejou por pensar que se
tratava de uma brincadeira) Cagão foi o seu nome.
Cagão cresceu saudável e tornou-se um belíssimo gato pardo
com belas riscas pretas tipo tigre e olhos invulgarmente grandes e redondos
para gato, que lhe conferiam uma expressão inteligente e quase humana. Toda a
gente elogiava a sua beleza, mesmo aqueles que não apreciavam particularmente
os gatos. Tornou-se um jovem adulto e o seu território era todo o sótão, que
tinha a mesma área da casa, e toda a casa.
Quando se tornou claro que já havíamos encontrado donos para
o Cagão e que esses donos éramos nós, a minha mulher insistia para que ele
fosse castrado. Sempre consegui fazer valer os meus argumentos e evitar tal
mutilação ao animal explicando que sendo ela mulher não conseguia compreender toda
a extensão do significado literal de castração.
O Cagão fazia agora parte das nossas vidas como mais um
membro da família. Tudo corria bem. Fazia as suas “necessidades” no caixote de
areia, não estragava demasiadas coisas, era uma boa companhia e um gato
original (gostava de amendoins por exemplo).
Mas eu sabia o que tinha, mais tarde ou mais cedo, de
acontecer.
Foi numa noite de Fevereiro que sonhei com a tarde em que
recolhi o Cagão, levado até ele por aqueles miados que pareciam uivos. No meu
sonho os uivos não pararam mesmo depois de pegar nele. Continuavam na minha
cabeça, angustiando-me, parecendo distantes e próximos ao mesmo tempo. Acordei.
Por momentos não percebi bem se estava acordado ou ainda a sonhar porque ainda
os ouvia. Mas estava acordado. E ouvia-os.
Estava a acontecer.
O Cagão, agora adulto, sentia através do telhado os cheiros
que lhe vinham do exterior, e nesses cheiros, alguns em particular foram-lhe
despertando a natureza da sua condição de gato macho e, sem saber bem porquê,
chamava por algo. Chamava com todas as forças dos seus pulmões como antes
fizera chamando pela mãe. Mas não era a mãe que ele chamava agora.
Isto repetia-se noite após noite. Se eu me levantasse e o
chamasse ele vinha por momentos saudar-me mas logo voltava para o seu lamento,
sem saber porquê nem o que fazia. Uma força maior que a dele chamava-o também
sem que nós percebêssemos.
De início preocupava-me que os vizinhos fossem incomodados
mas o facto de ele escolher o sotão para o seu triste lamento (talvez porque
estivesse em contacto com o ar exterior) fazia provavelmente com que não fosse
ouvido noutras casas, ou se fosse, soaria como mais um dos gatos que, na rua,
cumpriam o seu ritual de apaixonados.
Tinha eu já decidido que o Cagão necessitava de companhia
quando se deu um inesperado e chocante acontecimento.
Uma manhã de sábado fui subtraído às minhas reflexões
existenciais, que sempre tenho enquanto faço a barba, por um barulho contínuo
que parecia o de alguém que caíra ao chão e que, depois de se levantar, continuava
a cair. Saí imediatamente do quarto-de-banho e deparei-me com o Cagão no chão
do corredor, com violentos espasmos. Tentava levantar-se mas visivelmente sem controlo
de si próprio voltava a cair, sempre com espasmos nos membros e sem controlo do
pescoço. Após um primeiro momento de choque, imediatamente lhe segurei a cabeça
de modo a não se magoar e tentei segurá-lo na posição de deitado. Felizmente já
tinha lido alguma coisa sobre este tipo de convulsões em gatos e lembrava-me
que normalmente não duravam mais que um minuto. Assim foi. Nem um minuto passou
quando o Cagão começou a ter menos espasmos e, a pouco a pouco, recuperar o
controlo motor.
Este tipo de situação enquadrava-se no que se chama “crise
epiléptica”. Podia ter sido pontual ou podia ter continuidade. Vários podiam
ser os motivos. Tinha de o levar ao veterinário.
Quando coloquei o Cagão na jaula de transporte já ele estava
completamente bem, nem parecia que lhe sucedera algo tão assustador.
Como era sábado dirigi-me a uma clínica veterinária no
Porto.
Instantes antes de chegar à recepção lembrei-me que
provavelmente iriam querer fazer um registo do animal e para isso quereriam
saber o nome. Ainda me passou pela cabeça indicar outro nome mais “normal”. Mas
pensando melhor, não. Afinal, era um nome que saía da vulgaridade dos tarecos,
ou pantufas, ou nomes de jogadores da bola. Eu era uma pessoa criativa. Era até
uma oportunidade de brilhar.
Quando a recepcionista, tal como eu previra, me perguntou “O
nome do gatinho?” coloquei um sorriso bem confiante e o meu melhor “ar de
malandro” para responder “O gatinho chama-se Cagão”. A menina baixou os olhos
para o teclado sem “dar parte de fraca” enquanto um miúdo, que estava atrás de
mim segurando uma gaiola com um hamster, soltava uma gargalhada que provocou o
silêncio em pessoas e bichos que aguardavam na sala de espera.
Sentei-me. Coloquei a jaula por baixo da cadeira, tapada
ainda pelas minhas pernas, não muito seguro das boas maneiras que me tinham
dito existirem entre os animais quando estão na sala de espera de um
veterinário. Entre um olhar desconfiado ao perdigueiro à minha direita e outro
ao caniche à minha esquerda ia-me apercebendo, sem prestar atenção, que algumas
pessoas iam sendo chamadas pela menina da recepção, mesmo em frente a mim, e se
dirigiam a algumas das salas de consultas. Estava bastante gente.
Desta vez a recepcionista pareceu fixar-me. Já devia ser a
minha vez. Óptimo.
Pareceu-me vê-la desenhar um sorriso pleno de confiança, pôr
o seu melhor “ar de malandra”…a vingança serve-se fria, ainda consegui pensar, percebendo
qual seria o inevitável desfecho.
“O Cagão!” chamou ela.
Podem imaginar a reacção daquela sala de espera, adultos,
crianças (até os animais, me pareceu na ocasião), quando me levantei como
resposta aquela chamada.
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