O sabor ligeiramente salgado
daquele líquido morno, fluido, que lhe invadia a boca e descia pela garganta,
trazia-lhe reminiscências de memórias de um prazer adjacente à alimentação. Algo
mais do que a satisfação de uma necessidade básica de sobrevivência.
Eram recordações perigosas para
alguém na sua condição.
Nunca voltaria a ser o que antes
fora e desejá-lo retardava a sua evolução dentro da forma atual.
Este fraquejo, momentâneo,
trouxe-lhe uma revolta interior que logo se transformou em irritação. Largou
o braço da vítima com desprezo, como se assim arrancasse definitivamente todas
as metástases que ainda lhe faziam aflorar o passado ao pensamento, como um
tumor que teima em continuar a crescer mesmo depois de cortado.
O sangue jorrou da artéria
sujando-lhe o rosto e a roupa.
Estava ainda viva?
Mais algumas golfadas de sangue
emergiram daquele braço inerte.
A sua mão direita ainda apertava
aquele pescoço frágil de mulher. Voltou o olhar para aquele rosto de olhos
muitos abertos e fixos de espanto, de medo. A boca entreaberta parecia ainda
querer expulsar o grito que ficara bloqueado na garganta apertada. Mas os
lábios estavam imóveis, mudos. Estava morta. Porque não haveria de estar?
Sempre sucumbiam ao terrível poder da sua mão. As unhas, garras, apenas
afloravam a pele. O que os derrotava, homens, mulheres, mais velhos ou mais
novos, era o aperto. Morriam por asfixia.
O que teria de diferente esta
mulher? Tentara libertar-se daquela mão, como sempre fazem. Tivera os espasmos
que sempre têm. Depois imobilizara-se, como sempre se imobilizam.
Até hoje nunca olhara o rosto
deles depois de se alimentar. Sempre partia sem sequer olhar para trás. Tê-lo
feito deixava-o pouco à vontade. Não gostava de alterar a ordem habitual dos
acontecimentos.
A imagem do rosto daquela mulher
levou-o novamente ao passado onde, envolto numa névoa ténue, outro rosto de
mulher lhe sorria, lhe dizia palavras que não ouvia mas adivinhava o
significado. Desse rosto parecia sentir um calor que passava para o seu próprio
rosto, uma suavidade que acalmava o seu espírito.
Estendeu a mão para o acariciar.
Então o rosto contorceu-se, o sorriso deu lugar a uma expressão de terror e os
olhos, que antes pestanejavam suavemente, tornaram-se fixos e enormes. Via a
sua mão destroçar aquela garganta. Queria parar mas a mão possuía uma vontade
própria.
Daqueles olhos agora
inexpressivos ainda rolaram algumas lágrimas antes do calor dar lugar ao frio.
Frio. O presente era um corpo
frio, o seu, que se alimenta tornando frios outros corpos.
Porque o atormentavam agora
estas memórias? Já tantos anos tinham decorrido desde que o calor o havia
abandonado.
Limpou a boca com um gesto rude
da mão, levantou-se e começou a andar sem olhar para trás tentando assim um
retorno definitivo à normalidade das coisas. Aquela rua era quase tão escura
como a sombra do que fora, antes, a sua alma. Os seus sentidos, sublimados pela
sua actual condição, mantinham-no informado de todos os detalhes sonoros,
olfactivos, visuais. Sabia que não havia ninguém ao longo de todo o caminho.
Ao fundo, numa pequena janela,
cintilava uma luz fazendo distorcer a imagem do contorno do telhado.
Distorcer? Era impossível a sua visão ser
distorcida. Um instinto residual fez com que levasse os dedos aos olhos.
Espanto, fúria, medo, esperança,
todos estes sentimentos lhe percorreram o corpo reunindo-se num grito, num rugido,
num uivo que gelou o sangue das criaturas que o ouviram.
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