Quando acordou, acordou com 40 anos. Estranha sensação aquela de ter 40
anos e não se sentir nos 30 sequer.
Parecia-lhe faltar tanto tempo, tantas coisas, tantos sonhos por
realizar, objectivos por cumprir, etapas a vencer. Não era assim que imaginara
ser, ter 40 anos.
Se calhar apenas se recusava a envelhecer. Um estranho feitiço
impedia-o de envelhecer.
Sentia-se como alguém que está sempre sóbrio. Como se vivesse no meio
do vinho mas nunca o bebesse. Se calhar devia beber de vez em quando. Se calhar
de vez em quando devia trocar a sobriedade pela audácia de não ficar sóbrio.
Peculiar forma de acordar aquela. De acordar e de viver.
Tinha adormecido a reflectir sobre o silêncio, ou melhor, sobre os
silêncios. Chegara à conclusão que existem muitas formas de silêncio. O
silêncio absoluto, concluiu, não existe, pelos menos em vida. Mesmo no espaço,
onde à partida poderíamos pensar que não ouviríamos nada, ouvimos sempre pelo
menos o bater do nosso coração.
A sua experiência de um silêncio agradável levava-o para momentos em
que, na ausência de ruído, somos envolvidos por aqueles sons que normalmente
são ignorados. Levava-o para uma encosta afastada de uma aldeia, onde o
silêncio é o som do vento na erva dourada de uma paisagem de verão, é o som de
um lagarto que nessa mesma erva se move em direcção a uma pedra onde ficará a
aquecer-se, é o som dos chocalhos das vacas que não se vêem mas se sabe que
pastam num lameiro do lado oposto daquele monte, de uma abelha que passa perto
com as patas carregadas de pólen, que no seu trabalho de obreira desenvolve
também, sem saber, um trabalho de poeta, sendo portadora de Sonetos de Amor
entre as flores e a responsável pelos frutos que daí resultam.
Que maravilhoso silêncio o destes sons.
Mas existiam mais silêncios.
O silêncio da solidão no meio do barulho da multidão. O silêncio da
ausência de respostas. O silêncio entre dois.
Fixara-se mais neste último. Nunca fora dos que achavam que quando duas
pessoas estão juntas o silêncio por ausência de conversa é um embaraço, que significa
que já não existe nenhum tema entre eles, que se esgotou o tempo daquele
encontro ou daquela relação. Sempre achou preciosos os momentos de silêncio
entre dois. Momentos em que podiam desfrutar de cada um ao pormenor, onde
podiam saborear o detalhe de cada expressão, de cada contorno do rosto, de cada
brilho do olhar, de cada tom da face.
Parecera-lhe sempre que o silêncio entre dois era mais o oposto. Quando
falamos apenas para nós próprios porque gostamos de nos ouvir, quando deixamos
de ouvir o que o outro diz porque já estamos fartos, quando falamos
circunstancialmente e nem nós próprios nos ouvimos, quando… quando ficamos
distraídos e deixamos de ouvir a música para ouvir apenas os ruídos. Esse sim
era o silêncio que o assustava.
Mais silêncios havia. Adormeceu a tentar fazer uma compilação de
silêncios.
Peculiar forma de adormecer aquela. De adormecer e de viver.
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