terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Peculiar…

Quando acordou, acordou com 40 anos. Estranha sensação aquela de ter 40 anos e não se sentir nos 30 sequer.
Parecia-lhe faltar tanto tempo, tantas coisas, tantos sonhos por realizar, objectivos por cumprir, etapas a vencer. Não era assim que imaginara ser, ter 40 anos.
Se calhar apenas se recusava a envelhecer. Um estranho feitiço impedia-o de envelhecer.
Sentia-se como alguém que está sempre sóbrio. Como se vivesse no meio do vinho mas nunca o bebesse. Se calhar devia beber de vez em quando. Se calhar de vez em quando devia trocar a sobriedade pela audácia de não ficar sóbrio.
Peculiar forma de acordar aquela. De acordar e de viver.

Tinha adormecido a reflectir sobre o silêncio, ou melhor, sobre os silêncios. Chegara à conclusão que existem muitas formas de silêncio. O silêncio absoluto, concluiu, não existe, pelos menos em vida. Mesmo no espaço, onde à partida poderíamos pensar que não ouviríamos nada, ouvimos sempre pelo menos o bater do nosso coração.
A sua experiência de um silêncio agradável levava-o para momentos em que, na ausência de ruído, somos envolvidos por aqueles sons que normalmente são ignorados. Levava-o para uma encosta afastada de uma aldeia, onde o silêncio é o som do vento na erva dourada de uma paisagem de verão, é o som de um lagarto que nessa mesma erva se move em direcção a uma pedra onde ficará a aquecer-se, é o som dos chocalhos das vacas que não se vêem mas se sabe que pastam num lameiro do lado oposto daquele monte, de uma abelha que passa perto com as patas carregadas de pólen, que no seu trabalho de obreira desenvolve também, sem saber, um trabalho de poeta, sendo portadora de Sonetos de Amor entre as flores e a responsável pelos frutos que daí resultam.
Que maravilhoso silêncio o destes sons.
Mas existiam mais silêncios.
O silêncio da solidão no meio do barulho da multidão. O silêncio da ausência de respostas. O silêncio entre dois.
Fixara-se mais neste último. Nunca fora dos que achavam que quando duas pessoas estão juntas o silêncio por ausência de conversa é um embaraço, que significa que já não existe nenhum tema entre eles, que se esgotou o tempo daquele encontro ou daquela relação. Sempre achou preciosos os momentos de silêncio entre dois. Momentos em que podiam desfrutar de cada um ao pormenor, onde podiam saborear o detalhe de cada expressão, de cada contorno do rosto, de cada brilho do olhar, de cada tom da face.
Parecera-lhe sempre que o silêncio entre dois era mais o oposto. Quando falamos apenas para nós próprios porque gostamos de nos ouvir, quando deixamos de ouvir o que o outro diz porque já estamos fartos, quando falamos circunstancialmente e nem nós próprios nos ouvimos, quando… quando ficamos distraídos e deixamos de ouvir a música para ouvir apenas os ruídos. Esse sim era o silêncio que o assustava.
Mais silêncios havia. Adormeceu a tentar fazer uma compilação de silêncios.

Peculiar forma de adormecer aquela. De adormecer e de viver.

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