terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

No meio da estrada

Ficar parado no meio da estrada não é muito saudável. Caminhar pelo meio da estrada também não. Ficar parado talvez seja um mal menor. Facilitamos a vida a quem tiver que se desviar de nós e ficamos mais perto do local onde nos desviamos do caminho certo, do último sítio onde estivemos numa posição favorável, isto é, num lado ou noutro, mas não no meio da estrada.


Caminhava sem orientação, pés molhados, cabelo molhado. Chovia muito e o vento era forte. Os olhos também molhados, mas não da chuva, não conseguiam ver o chão que pisava. A escuridão era total.
Não conseguia lembrar-se de nenhum rosto, nenhum nome. Nenhum. Pior que isso, não conseguia lembrar-se de quando ainda se lembrava.
Não sabia onde estava nem porque estava ali. Sabia quem era, isto é, sabia o que era. Não sabia o seu nome mas sabia que era uma pessoa. Pelo menos achava que sim. Sabia identificar as sensações. Frio, fome, desconforto, medo… angústia. Essa sensação estava sempre com ele. Sabia que se chamava angústia. Uma mistura de medo com tristeza sem saber qual a razão. Seria devido a um acontecimento passado, pela possibilidade de um acontecimento vir a ocorrer ou pela não ocorrência de algo esperado?
Não conseguia ver em nenhuma direcção tal era a escuridão. Queria sair dali. Queria correr mas as pernas não obedeciam. Pareciam pesar toneladas. Mal as conseguia arrastar. No entanto tinha a sensação que poderia sair dali a qualquer momento. A angústia transformava-se em desespero, em pânico. Tinha uma pressão em cima do peito e nem gritar conseguia. Estava em pé mas sentia-se deitado de encontro ao chão sem conseguir mover-se, como se estivesse soterrado. Caía. Tinha a certeza que caía. Estava ali em pé, paralisado, mas sentia-se cair cada vez mais depressa, em aceleração alucinante. E rodopiava. Ou tudo rodopiava em torno dele. A qualquer momento ia dar-se o terrível impacto. O seu corpo contra o solo. Mas que solo? Onde estava? Podia sentir a dor que se aproximava a uma velocidade cada vez maior. Ia morrer. Queria gritar mas não saía qualquer som da sua garganta. Ia morrer …

Acordou sentado e ofegante. Todo o corpo estava encharcado em suor. Os olhos também estavam molhados mas não de suor. A boca estava seca. Parecia-lhe ter gritado, mas ao seu lado a sua mulher dormia tranquilamente. Certamente teria acordado se tivesse gritado.
Levantou-se e saiu do quarto rapidamente. Tinha frio. Voltou para trás e vestiu o roupão. Acendeu a luz do corredor e dirigiu-se para a cozinha. Mais luz. Sair da penumbra trouxe-lhe algum conforto. Pouco a pouco deixava de sentir frio, deixava de sentir aquela angústia tenebrosa. Continuava a sentir fome. Escolheu uma maçã, sentou-se num banco da cozinha e enquanto comia dirigiu o olhar para o relógio na parede, à sua direita. Três e vinte da madrugada.
Alguns meses atrás nunca se imaginaria a comer uma maçã a meio da noite roubando minutos preciosos ao já não muito extenso tempo de descanso. Hoje, um professor “não colocado”, um dos oitocentos e muitos mil desempregados, não tinha que se preocupar com o tempo que o seu cérebro tinha para descansar mas com o que faria para o manter activo e bem ocupado.
Seria esta situação que lhe provocava este pesadelo recorrente? Isso podia explicar a angústia, a queda. Havia alguma lógica em associar a queda ao retrocesso na sua situação profissional, a angústia à incerteza quanto ao futuro. Não era nenhum psicanalista mas parecia-lhe existir alguma lógica nessas associações. A lógica é um modo de vida para um professor de matemática. Mas não se lembrar do seu nome, nem do nome de ninguém, nem sequer dos rostos de quem lhe era mais próximo…Porquê? Seria ele no sonho um clone a quem se tinham esquecido de implantar memórias de um passado falso, como faziam nos filmes sobre o tema, tão em voga no fim dos anos noventa?
Este pensamento trouxe-lhe um sorriso. O sorriso trouxe-o de volta para um estado de “normalidade”. Deitou-se novamente e adormeceu sem dificuldade.

Saiu de casa à hora habitual. Com todo o cuidado evitou os “cocós” que polvilhavam o passeio. Reprimiu um sentimento de raiva, não contra os cães coitados, mas contra quem os traz à rua para que aí façam as suas necessidades sem nunca tratarem de as limpar e claro, sem se darem ao trabalho de evitar que sejam feitas em cima do passeio. É por isso que sempre os levam para longe da sua própria porta. Uma parte de si tentava desculpabilizar este tipo de pessoas que certamente seriam também vítimas da sua própria ignorância. Outra parte de si, uma parte bem maior, negava a desculpabilização arremessando violentamente e sem qualquer tolerância a palavra estupidez e apagando a palavra ignorância. No meio deste conflito interior conseguiu chegar ao carro sem que fosse necessário voltar a casa para trocar de sapatos.
Enquanto conduzia em direcção ao café onde todas as manhãs tomava a sua dose de cafeína e se punha a par do que de mais relevante acontecia no país e no mundo, por detrás do praguejar contra condutores que não sinalizavam com “o pisca” a mudança de faixa de rodagem e do gesticular obsceno aos estacionados em segunda fila, o seu pensamento voltava-se para os acontecimentos dessa madrugada. Aquela situação de total amnésia em que se via no pesadelo assombrava-o mais que o pesadelo em si. Qual a associação? Porquê a recorrência? Incomodava-o não conseguir uma explicação lógica.
Quando saiu do carro em direcção ao café passou como habitualmente por um “sem-abrigo” bastante idoso que normalmente àquela hora arrumava os cobertores que o tinham protegido do frio nocturno numa das caixas de cartão que lhe serviam de telhado ou de cama, não sabia bem, e como habitualmente deixou-lhe um euro no recipiente usado para esse fim.
Há muito tempo que passava por este idoso mas de facto só começara a reparar nele e deixar-lhe “a moedinha” desde que se encontrava desempregado. Era um facto para o qual a estrutura do seu pensamento não tinha dificuldade em encontrar uma lógica. “Obrigado doutor. Que Deus o proteja.” disse o velhote por entre um sorriso sem dentes. Nessa manhã, sem qualquer razão aparente ocorreu-lhe que apesar de passar por aquela pessoa praticamente todos os dias não sabia o seu nome. “Como é que senhor se chama?” perguntou devolvendo o sorriso. O sorriso do velhote desapareceu imediatamente. Baixou os olhos e continuou a arrumar os cobertores, sem responder. “Eu só perguntei para o poder cumprimentar devidamente, já que aqui passo todos os dias. Evidentemente que tem todo o direito de não responder. Não lhe levo a mal.” Com algum desconforto virou costas e seguiu para o café.
“Não me lembro…”
 Voltou-se. Viu uns olhos com água mas sem brilho que deixavam a descoberto uma tristeza contagiante. Uma boca sem dentes que movia uns lábios que tinham dificuldade em se descolarem um do outro balbuciava de forma quase inaudível. “Não me lembro de nada. Não me lembro de ninguém. Nem nomes, nem rostos… Não me lembro nem de quando ainda me lembrava.”



Quando sabemos para onde queremos ir tomar o caminho mais curto é importante se tivermos pressa de chegar mas… não será o percurso mais importante que o destino final?

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