Ficar parado no meio
da estrada não é muito saudável. Caminhar pelo meio da estrada também não.
Ficar parado talvez seja um mal menor. Facilitamos a vida a quem tiver que se
desviar de nós e ficamos mais perto do local onde nos desviamos do caminho
certo, do último sítio onde estivemos numa posição favorável, isto é, num lado
ou noutro, mas não no meio da estrada.
Caminhava sem orientação, pés molhados, cabelo molhado. Chovia
muito e o vento era forte. Os olhos também molhados, mas não da chuva, não
conseguiam ver o chão que pisava. A escuridão era total.
Não conseguia lembrar-se de nenhum rosto, nenhum nome.
Nenhum. Pior que isso, não conseguia lembrar-se de quando ainda se lembrava.
Não sabia onde estava nem porque estava ali. Sabia quem era,
isto é, sabia o que era. Não sabia o seu nome mas sabia que era uma pessoa.
Pelo menos achava que sim. Sabia identificar as sensações. Frio, fome,
desconforto, medo… angústia. Essa sensação estava sempre com ele. Sabia que se
chamava angústia. Uma mistura de medo com tristeza sem saber qual a razão. Seria
devido a um acontecimento passado, pela possibilidade de um acontecimento vir a
ocorrer ou pela não ocorrência de algo esperado?
Não conseguia ver em nenhuma direcção tal era a escuridão.
Queria sair dali. Queria correr mas as pernas não obedeciam. Pareciam pesar
toneladas. Mal as conseguia arrastar. No entanto tinha a sensação que poderia sair
dali a qualquer momento. A angústia transformava-se em desespero, em pânico. Tinha uma
pressão em cima do peito e nem gritar conseguia. Estava em pé mas sentia-se
deitado de encontro ao chão sem conseguir mover-se, como se estivesse soterrado.
Caía. Tinha a certeza que caía. Estava ali em pé, paralisado, mas sentia-se
cair cada vez mais depressa, em aceleração alucinante. E rodopiava. Ou tudo
rodopiava em torno dele. A qualquer momento ia dar-se o terrível impacto. O seu
corpo contra o solo. Mas que solo? Onde estava? Podia sentir a dor que se
aproximava a uma velocidade cada vez maior. Ia morrer. Queria gritar mas não
saía qualquer som da sua garganta. Ia morrer …
Acordou sentado e ofegante. Todo o corpo estava encharcado em suor. Os olhos também
estavam molhados mas não de suor. A boca estava seca. Parecia-lhe ter gritado,
mas ao seu lado a sua mulher dormia tranquilamente. Certamente teria acordado
se tivesse gritado.
Levantou-se e saiu do quarto rapidamente. Tinha frio. Voltou
para trás e vestiu o roupão. Acendeu a luz do corredor e dirigiu-se para a
cozinha. Mais luz. Sair da penumbra trouxe-lhe algum conforto. Pouco a pouco deixava
de sentir frio, deixava de sentir aquela angústia tenebrosa. Continuava a
sentir fome. Escolheu uma maçã, sentou-se num banco da cozinha e enquanto comia
dirigiu o olhar para o relógio na parede, à sua direita. Três e vinte da
madrugada.
Alguns meses atrás nunca se imaginaria a comer uma maçã a
meio da noite roubando minutos preciosos ao já não muito extenso tempo de
descanso. Hoje, um professor “não colocado”, um dos oitocentos e muitos mil
desempregados, não tinha que se preocupar com o tempo que o seu cérebro tinha
para descansar mas com o que faria para o manter activo e bem ocupado.
Seria esta situação que lhe provocava este pesadelo
recorrente? Isso podia explicar a angústia, a queda. Havia alguma lógica em
associar a queda ao retrocesso na sua situação profissional, a angústia à
incerteza quanto ao futuro. Não era nenhum psicanalista mas parecia-lhe existir
alguma lógica nessas associações. A lógica é um modo de vida para um professor
de matemática. Mas não se lembrar do seu nome, nem do nome de ninguém, nem
sequer dos rostos de quem lhe era mais próximo…Porquê? Seria ele no sonho um
clone a quem se tinham esquecido de implantar memórias de um passado falso,
como faziam nos filmes sobre o tema, tão em voga no fim dos anos noventa?
Este pensamento trouxe-lhe um sorriso. O sorriso trouxe-o de
volta para um estado de “normalidade”. Deitou-se novamente e adormeceu sem
dificuldade.
Saiu de casa à hora habitual. Com todo o cuidado evitou os
“cocós” que polvilhavam o passeio. Reprimiu um sentimento de raiva, não contra
os cães coitados, mas contra quem os traz à rua para que aí façam as suas
necessidades sem nunca tratarem de as limpar e claro, sem se darem ao trabalho
de evitar que sejam feitas em cima do passeio. É por isso que sempre os levam
para longe da sua própria porta. Uma parte de si tentava desculpabilizar este
tipo de pessoas que certamente seriam também vítimas da sua própria ignorância.
Outra parte de si, uma parte bem maior, negava a desculpabilização arremessando
violentamente e sem qualquer tolerância a palavra estupidez e apagando a
palavra ignorância. No meio deste conflito interior conseguiu chegar ao carro
sem que fosse necessário voltar a casa para trocar de sapatos.
Enquanto conduzia em direcção ao café onde todas as manhãs
tomava a sua dose de cafeína e se punha a par do que de mais relevante
acontecia no país e no mundo, por detrás do praguejar contra condutores que não
sinalizavam com “o pisca” a mudança de faixa de rodagem e do gesticular obsceno
aos estacionados em segunda fila, o seu pensamento voltava-se para os
acontecimentos dessa madrugada. Aquela situação de total amnésia em que se via
no pesadelo assombrava-o mais que o pesadelo em si. Qual a associação?
Porquê a recorrência? Incomodava-o não conseguir uma explicação lógica.
Quando saiu do carro em direcção ao café passou como
habitualmente por um “sem-abrigo” bastante idoso que normalmente àquela hora
arrumava os cobertores que o tinham protegido do frio nocturno numa das caixas
de cartão que lhe serviam de telhado ou de cama, não sabia bem, e como
habitualmente deixou-lhe um euro no recipiente usado para esse fim.
Há muito tempo que passava por este idoso mas de facto só
começara a reparar nele e deixar-lhe “a moedinha” desde que se encontrava
desempregado. Era um facto para o qual a estrutura do seu pensamento não tinha
dificuldade em encontrar uma lógica. “Obrigado doutor. Que Deus o proteja.” disse
o velhote por entre um sorriso sem dentes. Nessa manhã, sem qualquer razão
aparente ocorreu-lhe que apesar de passar por aquela pessoa praticamente todos
os dias não sabia o seu nome. “Como é que senhor se chama?” perguntou
devolvendo o sorriso. O sorriso do velhote desapareceu imediatamente. Baixou os
olhos e continuou a arrumar os cobertores, sem responder. “Eu só perguntei para
o poder cumprimentar devidamente, já que aqui passo todos os dias. Evidentemente
que tem todo o direito de não responder. Não lhe levo a mal.” Com algum
desconforto virou costas e seguiu para o café.
“Não me lembro…”
Voltou-se. Viu uns
olhos com água mas sem brilho que deixavam a descoberto uma tristeza contagiante.
Uma boca sem dentes que movia uns lábios que tinham dificuldade em se
descolarem um do outro balbuciava de forma quase inaudível. “Não me lembro de nada. Não me lembro de ninguém. Nem nomes, nem
rostos… Não me lembro nem de quando ainda me lembrava.”
Quando sabemos para
onde queremos ir tomar o caminho mais curto é importante se tivermos pressa de
chegar mas… não será o percurso mais importante que o destino final?
Sem comentários:
Enviar um comentário