terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O velho


Sou velho. Sou muito velho.
A velhice é uma etapa de um caminho feito passo a passo. Passos do passado que chegam até hoje.
Mas que é o presente senão o futuro do passado, que será passado no futuro?
Percorro a vida à procura da minha mortalidade mas a Morte é incapaz de se aproximar.
Não lhe é possível. Não nos é possível dialogar.
Fixamo-nos um no outro à distância. Nunca tem o mesmo rosto.
Reconheço-a pelo cheiro a flores de cemitérios por onde à noite passeio, apenas para ouvir conversas sussurradas sem voz. Os mortos nunca falam do passado. Apenas de futuros alternativos.

É sempre ela quem primeiro desvia o olhar.

Não sou imortal por definição mas neste mundo tenho imunidade diplomática à morte.
Subo a íngreme ladeira com uma ligeireza reveladora da ajuda dos santos.
Os jovens fazem  uma pausa para descanso. Os carros necessitam de uma segunda, tal como eu… de uma segunda oportunidade para negociar a minha morte com a Vida, já que não me é possível negociar a vida com a Morte.
Alcanço, com passos introspetivos, a ultima das portas. É lá que finalmente a vou encontrar.
Mas… se não é aqui?
É aqui sim.
Sente-se a presença avassaladora de um universo materializado numa forma que se expande e se recolhe em explosões de contornos e linhas de horizontes só visíveis aos mais preparados.
Mas… se não estiver em casa?

Se não estiver há-de chegar... a Vida sempre chega, mais cedo ou mais tarde.

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