Sou
velho. Sou muito velho.
A
velhice é uma etapa de um caminho feito passo a passo. Passos do passado que
chegam até hoje.
Mas
que é o presente senão o futuro do passado, que será passado no futuro?
Percorro
a vida à procura da minha mortalidade mas a Morte é incapaz de se aproximar.
Não
lhe é possível. Não nos é possível dialogar.
Fixamo-nos
um no outro à distância. Nunca tem o mesmo rosto.
Reconheço-a
pelo cheiro a flores de cemitérios por onde à noite passeio, apenas para ouvir conversas sussurradas sem voz. Os
mortos nunca falam do passado. Apenas de futuros alternativos.
É sempre
ela quem primeiro desvia o olhar.
Não
sou imortal por definição mas neste mundo tenho imunidade diplomática à morte.
Subo
a íngreme ladeira com uma ligeireza reveladora da ajuda dos santos.
Os
jovens fazem uma pausa para descanso. Os carros necessitam de uma
segunda, tal como eu… de uma segunda oportunidade para negociar a minha morte
com a Vida, já que não me é possível negociar a vida com a Morte.
Alcanço, com passos introspetivos,
a ultima das portas. É lá que finalmente a vou encontrar.
Mas…
se não é aqui?
É aqui
sim.
Sente-se
a presença avassaladora de um universo materializado numa forma que se expande
e se recolhe em explosões de contornos e linhas de horizontes só visíveis aos
mais preparados.
Mas…
se não estiver em casa?
Se
não estiver há-de chegar... a Vida sempre chega, mais cedo ou mais tarde.
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